Portugal abandonado

Um país não existe sem pessoas. Uma economia não funciona sem pessoas. É risco de sobrevivência, o que vive Portugal.

Década após década, repetem-se os alertas, as empresas veem-se mais limitadas na sua capacidade de produzir e renovar quadros, a idade de reforma é adiada e o conforto proporcionado pela prestação social devida a quem já deu o seu melhor pelo país reduz-se, mesmo aumentando o esforço daqueles que entregam já quase metade do que recebem ao Estado para que se cumpra a sua função social. A alteração recente de paradigma deveu-se apenas ao excesso de mortes entre os mais velhos, reduzindo a proporção de cidadãos que dependem de cada português ativo. E é cada vez mais flagrante a falta de mãos que ajudem a construir riqueza.

Todos os alertas de pouco têm servido, porém, quando chega a hora de tomar medidas. Não há políticas de natalidade sérias - ninguém decide ter mais filhos porque o pré-escolar é obrigatório quando na verdade não há infraestruturas que acolham os pequenos e lhes proporcionem uma educação decente. Ninguém decide ter mais filhos por receber umas dezenas de euros de abono de família quando se vão mais 20 euros só em cada vez que enche o depósito e as contas do supermercado disparam sem que os rendimentos mexam. Ninguém decide ter mais filhos porque tem manuais escolares de graça quando demasiadas vezes faltam professores que ensinem as crianças e as escolas nem um ginásio têm para a teoricamente obrigatória educação física ou meios e recursos que os aproximem das artes e da cultura, que lhes transmitam curiosidade de aprender e lhes garantam ferramentas para fazê-lo.

As políticas de imigração, que poderiam ajudar a amaciar os efeitos do problema demográfico do país nas duas ou três gerações que levaria a emendar a tendência de franco envelhecimento e a inverter a débil curva de natalidade, são igualmente anedóticas. Dizemos querer atrair jovens qualificados e eles até gostam de aqui viver, mas muitos fazem-no ao serviço de empresas cujo produto é concretizado e retido fora de Portugal. Criamos facilidades à entrada de cidadãos dos tão próximos PALOP, mas as medidas não saem do papel para a realidade. E aos demais trabalhadores estrangeiros que apregoamos desejar atrair, castigamos com obrigações fiscais e empecilhos burocráticos cuja exigência não tem nem de perto paralelo com as condições que lhes oferecemos para aqui se fixarem. A começar pela falta de habitação digna, que nem aos portugueses é garantida por um governo que quer transferir responsabilidades para os privados, mantendo na sua esfera de gestão centenas de imóveis mal utilizados ou até devolutos, não empreendendo políticas sérias de habitação para dar condições mínimas a novas famílias, afastando cada vez mais o olhar de um interior crescentemente abandonado à sua sorte e maltratando os proprietários que poderiam estar disponíveis para ajudar a resolver essa tão flagrante carência.

Sem pessoas, Portugal caminha a passos largos para a irrelevância, para a miséria, para a insustentabilidade. Sem medidas eficazes que possam inverter o nosso trágico destino, não há país. É esta a realidade que já vivemos. Sem renovação, não há futuro.

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