Ricardo Reis

Portugal e o Brexit

Nos próximos 6-12 meses, Portugal pode ter uma nova crise de capitais, exigindo novo apoio financeiro externo.

No longo prazo, o brexit é uma machadada no processo de integração europeia, e um grande retrocesso na liberdade de circulação das pessoas, bens e capitais no nosso continente. Talvez os efeitos sejam pequenos, talvez sejam grandes, mas é difícil ver como é que não serão forçosamente negativos.

Olhando antes para o curto prazo e para Portugal, a maior preocupação é o que acontecerá às centenas de milhares de portugueses que vivem no Reino Unido. O mais provável é que pouco ou nada aconteça, pelo menos de acordo com todas as promessas dos dois lados do debate antes do referendo.

Focando-nos mais na economia portuguesa e no horizonte do próximo ano, há dois enormes riscos.

O primeiro é o clima de incerteza que se vai viver nas próximas semanas e se pode estender durante muitos meses. A incerteza é má para a economia porque leva as empresas a retraírem o investimento, à espera que o horizonte se torne mais claro. É sobretudo má para um país como Portugal, que tem uma enorme dívida externa e uma baixa taxa de poupança, que nos leva a dependermos de investimento e capital externos. Nos próximos meses, vão ser poucas as empresas de fora a querer investir o seu dinheiro na União Europeia, quanto mais num pequeno país periférico que muda o sistema fiscal a toda a hora.

Talvez os efeitos sejam pequenos, talvez sejam grandes, mas é difícil ver como é que não serão forçosamente negativos.

Nos mercados de capitais, a incerteza tem uma resposta: a fuga de capitais para portos seguros. Quando a incerteza aumenta, os países que são vistos como arriscados sofrem. O dólar vai subir e a taxa de juro da dívida alemã vai cair ainda mais.

A taxa de juro sobre a dívida portuguesa vai subir e os nossos bancos vão sofrer para conseguir financiamento no exterior. Para quem acha que isto não nos afeta, use a memória para se lembrar de 2007-08. Problemas no mercado financeiro norte--americano começaram o processo que levou ao resgate português pela troika.

O segundo enorme risco tem que ver com a nossa política económica. Há uma corrente nas discussões políticas em Portugal que defende termos voz grossa na Europa para extrair melhores condições nos nossos empréstimos em troca de menos restrições sobre as nossas finanças públicas.

Depois do referendo, a probabilidade de esta estratégia ter qualquer sucesso parece muito pequena. Não é por acaso que foram os partidos nacionalistas do Norte da Europa os primeiros a congratularem-se com os resultados do referendo. Quem ganhou força política na UE com este referendo foram todos os que estão fartos de aturar a Grécia e Portugal, e querem que nós paguemos o dinheiro que devemos mais depressa, com mais austeridade e menos compreensão.

A nossa pequena e frágil economia abalou com o subprime e pode abalar com o brexit. Nos próximos 6-12 meses, Portugal pode ter uma nova crise de capitais, exigindo novo apoio financeiro externo. Pode falhar (mais uma vez) os objetivos do défice e ir pedir mais tempo sem multas a Bruxelas. No mundo pós-brexit, é menos provável recebermos qualquer ajuda do resto da Europa. Vamos aguentar-nos?

Professor de Economia na Universidade  de Columbia, em Nova Iorque, Ricardo Reis escreve todas as semanas no Dinheiro Vivo

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