Portugal em recuperação?

Se o PIB cair 40% num ano e subir 60% no ano seguinte e depois se repetirem ciclos iguais com uma queda alternada de 40% e uma subida de 60% quantos anos são necessários para que o PIB atinja o zero? Esta pergunta é clássica nos cursos de finanças. É que a subida de 60% não compensa a queda dos 40% e o PIB vai descendo aos solavancos até chegar a zero. É contraintuitivo mas completamente verdadeiro.

Assim depois de uma queda desamparada do PIB em 2020 e de uma impercetível recuperação em 2021 o crescimento previsto para 2022 pode parecer robusto mas na realidade é anémico. Não é assim que o país se relança na senda do crescimento, nem será a este ritmo que deixará a cauda da Europa.

Sempre que o país dispõe de avultados fundos os responsáveis políticos falam de políticas inclusivas e de redução da pobreza. Os ciclos repetem-se e continuamos com mais de 20% de pobres e outros 20% ligeiramente acima da linha da pobreza e que são igualmente carenciados. Ou seja mais de 40% portuguesa vive gritantes dificuldades de toda a ordem, desde habitacionais - persistem os bairros de barracas, a habitação degradada, a fome infantil mitigada por uma refeição nas escolas, a falta de água, eletricidade e aquecimento no inverno. Porque será diferente desta vez? Não o será certamente. Mas as promessas dão alento e calam o protesto e as vozes incómodas.

Vamos arregaçar as mangas e lançar-nos ao trabalho dizem os governantes, admitindo que em tempos normais as mangas estão lisas e a labuta para outros. Seja, mais vale tarde que nunca e o trabalho não faz mal a ninguém.

A sociedade, contudo, parece responder com apatia e desinteresse a este novo cabaz financeiro. Porque já sabe que nada lhe chegará aos bolsos, porque pressente os escândalos que estarão nos jornais daqui a uns anos.

Enquanto o desalento se vai instalando com os despedimentos coletivos e individuais, com a baixa dos salários e a subida da inflação, enquanto empresas e famílias enfrentam sem grandes recursos o fim das moratórias, a sociedade respira de alívio com a retirada prematura de algumas restrições sanitárias, no que mais parece ser uma pausa antes de novo embate.

Mas os surtos que começam a ocorrer em alguns lares, a certeza de que as vacinas só protegem durante uns meses, tudo começa a apontar para um inverno mortífero, uma tardia decisão de administrar a terceira dose das vacinas, e, eventualmente, o regresso de restrições que podem por em causa os números do PIB para 2022.

A incerteza pandémica é grande, a turbulência económica internacional enorme e Portugal navega à vista da costa rochosa e agreste. Assistimos ao um realinhamento internacional, com os EUA a centrarem-se cada vez mais na Ásia-Pacífico e unirem-se com o mundo anglo-saxónico, ao mesmo tempo que impõem restrições económicas à União Europeia. Portugal não sabe o que fazer, proclama-se atlantista mas alinha com as potências continentais.

Não aproveitámos este tempo de pandemia para reestruturar e reforçar o SNS, não aproveitámos este tempo para melhorar a produtividade com as ferramentas do trabalho remoto e da digitalização, não aproveitamos este tempo para reestruturar empréstimos e dívidas. Não estamos em forma para o relançamento. Ainda não curámos as feridas da crise.

O PIB cresce para o ano mas a trajetória não é positiva.

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