Opinião

Portugal, Gana e Rússia

Fotografia: Artur Machado/Global Imagens
Fotografia: Artur Machado/Global Imagens

Confesso que tenho dificuldade em perceber onde esta deriva panfletária nos leva. Tenho cá um palpite que os populistas agradecem.

Nas comparações internacionais, a narrativa dos média roça, não poucas vezes, a auto-humilhação sensacionalista e acrítica. Aconteceu, agora, com o Índice da Perceção da Corrupção (IPC) da Transparência Internacional (TI) e um relatório da Organização Mundial de Saúde (OMS) sobre consumo de álcool. Assuntos demasiado sérios para serem tratados sem escrutínio.

O IPC é construído a partir de vários índices, por hipótese relacionados com a corrupção, elaborados por 13 instituições. Face aos resultados deste ano, o JN titulava “Economistas colocam corrupção ao nível da do Gana”. Não discuto o gosto da comparação. Como sou economista, fui ler. Afinal, tratava-se da pontuação obtida por Portugal num índice, elaborado pela “The Economist” que, me parece, mede o risco (e não a corrupção!) dos países. Se assim não fosse, acha que, para além do Gana, países como a Irlanda, Israel, Hungria e Arábia Saudita (leu bem!) tivessem a mesma pontuação? No IPC estamos atrás de expoentes da transparência como os Emirados Árabes Unidos (EAU), 23º, que até fica à nossa frente no Projeto de Variedades (!!!) de Democracia e bateria, inclusive, a Dinamarca, a 1ª do ranking global, no inquérito aos gestores feito pelo World Economic Forum. Alguém crê que seria esse o resultado se fosse, mesmo, a corrupção que estivesse em causa? A própria TI, já depois de publicado o índice, acusou o Dubai (um dos 7 EAU) de ser um paraíso para lavagem de dinheiro… Que se façam comparações entre países avaliados por 10 ou mais instituições com outros só por 3, também não ajuda a dar credibilidade, nem consequência ao exercício. É pena, já que o que está em causa é um pilar do regime democrático e Portugal tem muito por onde melhorar.

No caso da OMS o opróbrio é russo: bebemos mais álcool do que eles! Podia-se sublinhar que Portugal era um dos países que mais tinha diminuído o consumo médio, analisar o papel do turismo nos resultados, ver como melhorar sem entrar na deriva proibicionista. Mas não!

Confesso que tenho dificuldade em perceber onde esta deriva panfletária nos leva. Tenho cá um palpite que os populistas agradecem.

 

Alberto Castro, economista e professor universitário

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