Portugal: jogar para ganhar ou para não perder?

Este é um momento muito importante da nossa história, pois é provavelmente uma das últimas oportunidades de aplicarmos o investimento externo para dar um salto em termos de desenvolvimento do país.

Gostava de partilhar a visão de alguns princípios que considero que devem ser seguidos, e que frequentemente são ignorados.

Temos de ter ambição de estar no topo, junto com os melhores, se tentamos estar na média da EU acabamos por ficar no fim da tabela. Temos de pensar de forma global mas atuar de maneira especifica: cada setor necessita de medidas específicas, frequentemente os temas que estão na ordem do dia não são os relevantes para os setores mais competitivos e com mais potencial (ex: discussão sobre o salário mínimo ou questões de proteção laboral). Em vez de gerirmos para ganhar nos setores certos gerimos para não perder nos setores errados. Não podemos conduzir a olhar para o retrovisor e para o que funcionou no passado. Temos de gerir a olhar para a frente, apostando nos setores que podem dar mais retorno independentemente de investimentos que já tenha sido feito no passado. Não podemos gerir com base na existência de incentivos, os projetos têm de ter mérito mesmo sem incentivos.

Quero partilhar também uma opinião sobre um dos setores que acredito ser fundamental para o nosso futuro, o setor da Tecnologia e Sistemas de Informação, e não, não vou falar de baixar impostos, existem fatores que têm bastante mais impacto.

Em primeiro lugar o primeiro fator crítico é a disponibilidade de talento, temos de ter muito mais pessoas a entrar em áreas tecnológicas ou relacionadas, treinadas para as necessidades reais do mercado de trabalho. Temos de ter um plano a curto prazo para duplicar o número de vagas em Politécnicos e Universidades, e isto tem de ser um desígnio nacional, e não um terreno de batalha político. Temos de ter uma política seletiva de aprovação rápida e eficiente de Vistos para trazer talento externo. Portugal como centro de excelência tecnológica virada para o mundo necessita de talento com qualidade, que tem, e com escala, que não tem. O ranking de alunos matriculados em Ciências, Matemática e Informática na UE no 27º lugar, é liderado surpreendentemente pela Grécia, mas a Finlândia, Irlanda, Alemanha e Áustria estão nos lugares cimeiros, Portugal ocupa o 23º lugar (dados relativos a 2018/Pordata).

Necessitamos de maior flexibilidade no mercado de trabalho. Estamos em 2020, numa economia do conhecimento, os trabalhadores estão em controlo quase total dos instrumentos de trabalho, o seu conhecimento, não necessita que o Estado central crie regras sem sentido para tudo. As empresas necessitam de agilidade e capacidade rápida de adaptação às suas necessidades, e têm de trabalhar numa lógica de destruição criativa: quando falha, deve falhar rápido, e quando corre bem tem de ser fácil acelerar rápido. Para isto é necessário ter menos regras e deixar a relação empresa-colaborador funcionar.

Na última edição do Global Competitiveness Report, do World Economic Forum, e entre 140 economias, Portugal ficou mal colocado em termos de flexibilidade no mercado de trabalho, sub-ranking desta área 51º / ranking geral 34º, tendo alguns indicadores particularmente maus como por exemplo 121º em práticas de contratação e despedimento e 120º em mobilidade interna.

Temos de acabar com a burocracia desnecessária e baixar os custos de contexto. Não podemos desejar que as empresas exportem e depois criarmos obstáculos quando isto acontece. Um exemplo disso são as dificuldades que são criadas na devolução do IVA ou os relatórios que são exigidos pelo Banco de Portugal, obstáculos criados que penalizam exatamente quem mais exporta. Por falta de capacidade do estado de assegurar o cumprimento de regras a uma minoria prevaricadora não podemos criar obstáculos a todas as outras.

No mesmo estudo do World Economic Forum mencionado anteriormente, Portugal fica de novo muito mal colocado no indicador "peso da regulamentação governamental", tendo ficado em 94º lugar

Em suma, considero que estamos num momento único em que é necessário repensar as medidas e gerirmos de maneira especifica diferentes setores estratégicos. Todos os atores políticos têm também a obrigação de se entenderem e honrarem o lugar que têm, colocando de parte as suas convicções ideológicas e as disciplinas partidárias, Portugal merece muito mais e não pode esperar!

Tiago Gonçalvez é CEO da Innowave

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de