Poucochinho

Ao anunciar a provação do PRR português, António Costa sublinhou o impacto positivo que o mesmo traria para a economia portuguesa. Discurso, no essencial, repetido à tarde em Madrid por Sanchéz e, no dia seguinte, pelo primeiro-ministro (PM) grego. Com um detalhe: ambos puderam anunciar valores mais altos, bastante mais, no caso grego. Se nada de novo acontecer, quando se esgotarem os fundos do PRR estaremos mais longe talvez não da média europeia, um lugar vazio, mas dos nossos semelhantes. Continuaremos a crescer poucochinho.

Este tipo de previsões têm uma grande dose de incerteza, dada a complexidade inerente às interações económicas espoletadas pelos estímulos. Em vez de se regozijar com o impacto positivo, talvez o PM pudesse ter estabelecido, desde logo, o propósito de bater as previsões. Como? Por exemplo, acelerando alterações nas administrações públicas (AP), previstas do PRR, e que, em rigor, não custarão muito dinheiro, mas apenas, um grande apenas, a vontade de mexer com estruturas estabelecidas. Na semana passada, Pinho Cardão evidenciava aqui a redundância, a roçar o ridículo, da multiplicação de tutelas, um resultado daquilo que se poderia chamar o "silogismo" da AP: ministérios que funcionam em silos estanques uns dos outros, conduzindo a duplicação de estruturas e a rivalidades espúrias e paralisadoras. Quando PRR é sinónimo de urgência, a depuração organizacional é condição necessária. Cada dia que passa é um dia perdido.

Condição necessária. Não suficiente. Inovar é crucial, seja para build back better, seja para criar uma economia nova. A este propósito, quase passou despercebido, que não à AEP, o European Innovation Scoreboard 2021. Se 2020 nos guindara a inovador forte, 2021 relegou-nos para o fim da lista dos "moderados". Se houve mudanças na metodologia (para todos!), a fragilidade continua a estar na dificuldade de transformar conhecimento (somos bons!) em resultados económicos. Quando subimos, tocaram as trombetas. Agora, silêncio. Admitamos que se esteja a analisar o que há a melhorar nas políticas e nas práticas. Não para ficar bem na fotografia, mas para não continuarmos condenados a crescer poucochinho.

Alberto Castro, economista e professor universitário

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