Ricardo Reis

Poupar energia

Construir uma casa requer cumprir uma longa lista de regulamentos.

Nas últimas décadas, aumentaram os regulamentos energéticos para reduzir o consumo através de melhor construção. Mas as estas regras têm o efeito desejado?

Há três razões pelas quais não podemos confiar nas estimativas de poupança de energia nos estudos de engenharia. Primeiro, porque mudando a casa, o comportamento das pessoas muda também. Se custa menos a aquecer a casa, os residentes podem escolher mantê-la mais quente em mais dias do ano; no final poupa–se pouco. Segundo, talvez as pessoas estivessem dispostas a consumir menos energia e iam fazê-lo de qualquer forma. As leis refletem esta preferência, mas não causaram poupança. Terceiro, as pessoas podem escolher viver nas casas mais modernas que cumprem as regras, ou em casas mais antigas que não o fazem. Se quem escolhe a primeira opção é uma pessoa que por hábito consome menos energia, então comparar o seu consumo com o de outros não revela o efeito da regulação.

Um trabalho recente estudou o efeito das regulamentações na Califórnia para a construção depois de 1990. De acordo com os engenheiros, o consumo de energia iria baixar 80% por causa da legislação, que tem servido de exemplo pelo mundo fora. O economista Arik Levinson lidou com os três problemas usando três estratégias.

Primeiro, comparou casas semelhantes na Califórnia em termos da zona, tamanho ou número de ocupantes. As casas construídas depois de 1990 usam 10 a 15% menos eletricidade do que as construídas antes de 1978; bem menos do que os prometidos 80%. Segundo, comparou estes 15% com a mesma diferença no consumo energético entre casas novas e velhas noutros estados americanos sem as regras energéticas. A diferença na Califórnia deveria ser maior. Mas a poupança é a mesma com ou sem regulação. Terceiro, comparou o aumento no uso da eletricidade quando a temperatura sobe entre a Califórnia e o resto do país. Se as regras fossem eficazes, o aumento energético para o ar condicionado funcionar seria menor na Califórnia. Mas não há grande diferença.

Concluindo, as regras energéticas não parecem ter tido grande efeito no consumo efetivo da energia e aumentaram significativamente os custos de construção. As regras adotadas em Portugal nos últimos 20 anos implicaram que algumas pessoas continuam a morar em barracas ou casas degradadas, porque as novas são mais caras por terem de cumprir com tantas regras energéticas.

Infelizmente, é raro ver bem medidos os custos e benefícios destes regulamentos. Assume-se que menos uso de energia é sempre melhor, independentemente do custo, e que se no modelo do computador as novas regras poupam 80%, então assim será na realidade. O tema é demasiado sério para permitir este descuido, tendo em conta o impacto na vida das pessoas.

Professor de economia na London School of Economics, em Londres

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Outros conteúdos GMG
Hoje
apple one

Apple One junta vários serviços, chega a Portugal mas com limitações. O que tem

A  90ª edição da Micam, a feira de calçado de Milão, está agendada para os dias 20 a 23 de setembro, com medidas de segurança reforçadas. Fotografia DR

Calçado. Micam arranca este domingo e até há uma nova marca presente

Os ministros da Presidência do Conselho de Ministros, Mariana Vieira da Silva (C), Economia, Pedro Sia Vieira (E) e do Trabalho Solidariedade e Segurança Social, Ana Mendes Godinho (D). MANUEL DE ALMEIDA/POOL/LUSA

Portugal é o quarto país da UE onde é mais difícil descolar do mínimo

Poupar energia