Opinião: António Saraiva

Precisamos atrair projetos de investimento

Foto: REUTERS/Rafael Marchante
Foto: REUTERS/Rafael Marchante Pessoas, Rossio, Lisboa, Portugal

O investimento direto estrangeiro, dirigido a setores produtores de bens e serviços transacionáveis, constitui uma via privilegiada para o relançamento tanto do investimento como das exportações, sem fazer perigar o equilíbrio das contas externas.

Na atual conjuntura, a capacidade de atrair investimento estrangeiro revela-se, assim, especialmente importante para o crescimento económico. Tanto mais que os baixos níveis de poupança interna, o elevado endividamento e as dificuldades das empresas no acesso ao financiamento são ainda pesados constrangimentos a um forte acréscimo do investimento empresarial de capitais nacionais.

Acresce que o investimento estrangeiro de raiz, nesses setores, é fundamental para uma maior e melhor integração do nosso tecido produtivo nas cadeias de valor globais. Este é um aspeto crucial para o futuro de qualquer economia, num mundo em que a produção de bens e serviços se fragmentou em redes complexas, onde o maior desafio para as empresas passou a ser o posicionamento nos segmentos com maior valor acrescentado.

O impulso que o investimento estrangeiro deu para a emergência em Portugal de um cluster altamente competitivo na indústria automóvel é, a este respeito, elucidativo.

É certo que o investimento direto estrangeiro tem vindo a reforçar o seu peso na economia, mesmo durante os anos de crise, com o seu stock a aumentar de 45,5% do PIB, em 2011, para 61,5% do PIB em 2017. Já em 2018, retrocedemos para um valor de 58.8% do PIB.

No entanto, esta evolução reflete sobretudo a aquisição de ativos em Portugal por parte de empresas estrangeiras e não tanto investimento produtivo de raiz. Além disso, com algumas exceções, este investimento dirigiu-se a setores não transacionáveis.

Desde 1995, data da instalação da Autoeuropa, Portugal não voltou a ter um investimento com um impacto semelhante ao que este projeto teve na sua estrutura produtiva.

Nesse ano, a indústria transformadora concentrava 35% do stock de capital detido por estrangeiros em Portugal. Desde então, à semelhança do que aconteceu com o investimento interno, também o investimento estrangeiro passou a privilegiar os setores de bens não-transacionáveis. Esta tendência agravou-se com a crise financeira internacional. Presentemente, apenas 5,2% do stock de investimento direto estrangeiro se encontra em setores da indústria transformadora.

É esta tendência que precisamos, agora, inverter.

Aos trunfos que Portugal já dispõe em termos de localização, estabilidade sociopolítica, qualidade de vida, infraestruturas, competências e adaptabilidade dos recursos humanos, importa somar um enquadramento mais favorável à captação de investimento.

Desde logo, um enquadramento fiscal mais atrativo, mas também um ambiente de negócios mais competitivo. Neste domínio, além da necessidade de diminuir custos administrativos e demais custos de contexto, surge como prioritária a promoção de uma justiça económica célere e eficaz.

Uma melhoria sensível nestas áreas seria o melhor argumento ao serviço de uma diplomacia económica ativa na captação de investimento para Portugal.

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