Precisamos de uma estratégia de longo prazo para as PME

As pequenas e médias empresas (PME) têm sido particularmente atingidas pela crise da covid-19, com a agravante de serem menos resilientes do que as companhias de maior dimensão. Por toda a Europa, os países têm procurado soluções para mitigar os efeitos num segmento que representa 70% de todos os empregos da União Europeia. Mas muitos negócios e empregos foram já perdidos.

O impacto não é igual em todos os estados-membros. Fatores como o peso específico das PME nas diferentes economias, e os setores de atividade em que estas atuam, têm contribuído para resultados bastante distintos.

Portugal é o segundo país da União Europeia, logo a seguir a Itália, onde as PME têm maior peso na economia: representam 99,3% do total de empresas, de acordo com dados do Eurostat. E se considerarmos que, segundo o Pordata, mais de 25% dessas empresas pertencem ao setor do Comércio por Grosso e a Retalho ou ao Alojamento, Restauração e Similares, torna-se clara a dimensão do desafio que enfrentamos.

O plano de Recuperação Next Generation Europe irá trazer um alívio a muitas empresas. No entanto, esta crise deve servir, tanto a nível nacional como europeu, para que se desenvolvam estratégias a longo prazo para as PME. Estratégias que, no que respeita a Portugal, deveriam passar por uma maior diversidade, fazendo crescer setores ainda sub-representados, nomeadamente aqueles que se baseiam no conhecimento, na inovação e nas novas tecnologias.

Para que isso aconteça, porém, é preciso que sejam criadas as condições adequadas. Não apenas através de apoios financeiros e incentivos, mas com medidas concretas de simplificação de procedimentos, de combate à burocracia, e sobretudo de aposta na qualificação da população, dos bancos de escola ao mercado de trabalho.

Quando a crise do coronavírus tiver passado, a Europa continuará a ter grandes desafios pela frente. Teremos de concretizar uma transição verde e uma transição digital, as quais exigirão um grande esforço de adaptação às empresas, mas sem as quais não teremos o crescimento sustentado e sustentável a que aspiramos.

A Comissão Europeia tem planos específicos para as PME dentro dos pilares verde e digital. E nós, eurodeputados, temos vindo a defendê-las no Parlamento Europeu. Eu própria questionei recentemente dois comissários europeus, Maroš Šefčovič e Margareth Vestager, respetivamente, sobre medidas para aumentar a resiliência das PME e facilitar o seu acesso a recursos tecnológicos, nomeadamente a Inteligência Artificial.

Mas é preciso que cada estado-membro faça o seu trabalho. O "plano" de recuperação anunciado pelo governo português - pelo menos aquilo que deste conhecemos - não vai nesse sentido. Não é com medidas excessivamente centralizadas, e com a habitual apetência pelo betão, que se mudam realidades e se constrói um futuro melhor.

Maria da Graça Carvalho, eurodeputada

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