Opinião

Precisamos falar de Cannes (?)

Cannes Lions
Cannes Lions

Para ganhar em Cannes, cada projeto precisa de alguns ingredientes básicos.

Portugal foi mal no Festival de Cannes Lions. Nas redes sociais, acumulam-se posts com palavras vazias. Culpa-se o tamanho do país, a impossibilidade de ter um case study abrindo com uma notícia na CNN ou com um headline na Time. Culpam-se os budgets, os clientes, culpa-se até o vizinho da frente. Mas logo passa. É Verão. Agosto está já aí e existem coisas bem mais importantes para pensar. (E existem mesmo. Afinal, Cannes é apenas um festival de criatividade e não o encontro do G20).

Mas quando setembro chegar e aquele sol de Outono convidar à introspeção, talvez seja uma boa hora para entender o porquê desse resultado e o que pode ser feito para melhorar.
Para ganhar em Cannes, cada projeto precisa de alguns ingredientes básicos. O essencial, é a ideia. Se ela for surpreendente, inédita e relevante para o negócio do cliente, tem 80% de chances de ser valorizada pelos jurados. Depois, claro, vêm outros ingredientes que ajudam a elevar a qualidade de um projeto.

Cliente. Sempre ajuda criar para uma marca que não precise explicação, mas vários ouros em Cannes provam que isso não é necessariamente um dado adquirido.

Impacto da ideia. A repercussão de uma ideia não deve ser negligenciada. Não precisa ter virado notícia numa media global, mas ajuda mostrar o impacto do projeto no contexto sócio-cultural local ou do negócio do cliente;

Craft do videocase. Por dias, os jurados ficam encatrafiados em salas assistindo a vários vídeos. Um case que tenha um cuidado visual, uma boa escolha de música e um storytelling claro e emotivo pode não ganhar votos, mas pelo menos ganha a simpatia do jurado.

Todas estas dicas, não trazem nada de novo, são simples e ao alcance da grande maioria dos profissionais portugueses. Não só pelo seu talento, como pelas oportunidades que vão surgindo ao longo de um ano de trabalho. Então, o que está errado? Na minha humilde opinião (e que vale o que vale porque não vivencio essa realidade pessoalmente), falta ao mercado ambição e referências.

Enquanto o mercado continuar a celebrar a alto e bom som a entrada de uma campanha de print na Luerzer’s Archive, as coisas não vão melhorar. Enquanto continuarem a celebrar dois dígitos de troféus ganhos em Festivais com pouca concorrência ou relevância quase nula, dificilmente se irá ver uma mudança. Enquanto a comunidade criativa do país continuar a aplaudir projetos medianos, não vão a lugar nenhum.

O mundo mudou. E neste novo mundo, sobrevivem agências onde fundadores se inscrevem num programa de TV popular e, frente às câmaras, mandam beijinhos para diretores de marketing com quem gostariam de trabalhar. Reconhecem esta ação? Isto foi o melhor que vi a ser produzido em terras lusas no último ano. É fresco, tem o espírito de hacker, chega direto no público alvo, é compartilhável e vira notícia. Talvez existam outras ações igualmente poderosas das quais não tive conhecimento.

Ficaria feliz se sim. Certo, é que os profissionais em Portugal são capazes de grandes feitos. De ideias de dar inveja, como os consagrados Smart Effect e Museu Efémero. Falta apenas olhar para o melhor que se faz no mundo e deixar o melhor que se faz no vizinho do lado, de lado.

Executive creative director da AKQA São Paulo

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