Preparar o país para o pós-moratórias 

Qual é a estratégia e como vai defender-se, por um lado, o sistema financeiro e, por outro lado, a economia real no período pós moratórias de setembro? Que país está a ser desenhado para lidar com essa fase de reconstrução e recuperação, à luz dos avisos já feitos, esta semana, pelo governador do Banco de Portugal? Estas são as perguntas que fazem empresários, investidores, gestores e cidadãos que conhecem a vida real - e esperam das autoridades públicas respostas concretas, com seriedade e pragmatismo.

Pouco se sabe acerca dessa estratégia, mas uma coisa é certa: para Mário Centeno a probabilidade de prolongar as moratórias "é muito, muito baixa" e que qualquer prorrogação sem autorização do regulador teria um "efeito ricochete" sobre os bancos e os clientes, com os créditos a ficarem sinalizados como "em reestruturação" e com as famílias a ficarem limitadas no acesso a futuros empréstimos. O Governador está preocupado com a falsa ilusão de que o país e a banca podem continuar a empurrar o problema com a barriga, sine die.

Mais do que as moratórias privadas que acabaram em 31 de março, a grande preocupação do supervisor prende-se com a moratória para as empresas, na qual há alterações em abril, pois uma parte delas começa a pagar já os juros. Caso não sejam firmas pertencentes aos setores "mais vulneráveis", não têm como escapar aos juros. Só as "vulneráveis", de áreas como restauração e hotelaria, gozarão ainda de período de carência de capital e juros até setembro.

Desta vez, o supervisor tem de dar ainda mais atenção ao indicador da economia comportamental. Mário Centeno afiança que está a ser usado "o maior conjunto de informação alguma vez utilizado para uma análise desta natureza, em termos de dados micro", porque "é necessário agir com antecipação". Aos números e às folhas de Excel, importa agora juntar o estudo das atitudes e expectativas para perceber o estado de saúde dos agentes económicos nacionais. A crise financeira iniciada em 2008 ensinou-nos que a economia comportamental não deve ser nunca descurada. Aliás, até houve economistas a ganhar o prémio Nobel por estudos nessa área, pois a macroeconomia deveria sempre ter em conta variáveis como a psicossociologia.

A pressão aumenta também para o lado do governo. O próprio antigo ministro das Finanças de António Costa considera que cabe ao governo a responsabilidade de criar mecanismos alternativos à prorrogação das moratórias, o que o setor bancário já tem vindo a reclamar e que pode passar por novas garantias públicas ou mecanismos de recapitalização de empresas. No pós-setembro das moratórias, é preciso considerar outros cenários como, por exemplo, o ciclo político de eleições autárquicas em outubro - e, quem sabe, eleições legislativas, se orçamento do Estado para 2022 não passar; o ritmo da recuperação prevista para o segundo semestre e da chegada de fundos europeus; e a resiliência das famílias e das empresas até ao final do ano se o plano de vacinação atrasar e se o país for obrigado a confinar de novo, o que já está a acontecer na Europa.

Jornalista

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