Opinião: Alberto Castro

Preparar para o pior, esperar o melhor

Fotografia: Peter Komka/EPA
Fotografia: Peter Komka/EPA

As previsões são insensatas. Não é preciso ser bruxo para antecipar que as consequências da brutal quebra no turismo serão dantescas

Benjamin Disraeli terá dito “estou preparado para o pior, mas espero o melhor”. Talvez o devessem recordar ao novo ministro das Finanças para evitar que, como se diz em futebolês, ande sempre atrás do prejuízo. Não sei se é otimismo ou só continuada ortodoxia orçamental impenitente. Irritante, em todo o caso. Ouvi-lo acusar o PSD de fazer propostas que aumentam a despesa e reduzem a receita, sem discutir o respetivo mérito, é sinal de alguém desfasado no tempo. Para estimular a procura, por exemplo, não faria sentido aumentar o IVA reembolsável para 500 euros, alargando as despesas elegíveis e admitindo que, mesmo os que não pagam impostos, pudessem ser ressarcidos (uma espécie de imposto negativo)? A economia não agradecia?

Como já aqui escrevi, é ridículo discutir este orçamento suplementar como se fosse o último. É provável que o orçamento já hoje esteja datado. As previsões, à décima, são insensatas, é certo. Não é, porém, preciso ser bruxo para antecipar que as consequências, diretas e indiretas, da brutal quebra no turismo serão dantescas. Os estabilizadores automáticos não chegarão para atenuar o respetivo impacto social. Se falarem com responsáveis da Cáritas, estes dir-lhes-ão que muitos dos que pedem apoio são jovens e, em grande número, estrangeiros refletindo a informalidade laboral que a euforia turística foi alimentando. A sociedade civil tem-se mobilizado. Todavia, já hoje não é suficiente (quantos apelos a doações recebe o leitor, com regularidade?). Sob pena de ver a fome grassar, o governo deve preparar-se para o pior o que, lamento Sr. Ministro, significará bastante mais despesa. Quanto às receitas, esqueça o PSD: a crise encarregar-se-á de as reduzir.

Costa Silva elaborou um plano para a recuperação económica. Só faz sentido discuti-lo se houver condições económicas e sociais e, por conseguinte, políticas para ser executado. Pouco adiantará ter um plano e fundos europeus se falharmos na transição. A política orçamental é um elemento basilar nesse processo. Há défices que vêm por bem.

 

Alberto Castro, economista e professor universitário

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