Opiniºão

Preto e branco

Fotografia: Steven Governo/Global Imagens
Fotografia: Steven Governo/Global Imagens

Faltam muitos números para que se possa ter discussões e decisões informadas e não apenas determinadas pela ideologia.

Um dia destes foi notícia o pagamento, pelo Estado, de quase 500 milhões de euros aos operadores privados de saúde, por análises e exames. Nesta aparente factualidade esconde-se uma multiplicidade de questões, desde as económicas até às sociais e políticas. O mundo raramente é a preto e branco. Essa é a maneira de ver predominante nas redes sociais, espaço por excelência para os extremismos primários, a difamação e o escrutínio pidescos: confirmam-no os comentários à referida notícia, ou melhor, ao título já que muitos “leitores” não passaram daí (e, muitos outros, nem isso, limitando-se a comentar o comentário).

Não é novidade as dificuldades que os meios de comunicação social tradicionais atravessam. Será simplista apontar as redes sociais como as únicas responsáveis pela situação. Como será conformismo em excesso adotar a lógica de que “se não as podes vencer, junta-te a elas”. Na ausência de uma estratégia, a última postura acabará por prevalecer, redundando na descaracterização dos media e, a prazo, talvez na sua extinção.

Admito que já ousei demais, num assunto sobre o qual sei pouco (e daí uma visão demasiado a preto e branco?), mas que me preocupa enquanto cidadão.

Voltando à notícia inicial, um economista questionaria quanto custariam aqueles serviços se internalizados pelo Estado. A prática empresarial demonstra que nem sempre recorrer ao mercado fica mais caro do que fazer internamente. Se o serviço, ou produto, não for essencial para a nossa atividade, o critério “custo” é uma boa base de decisão. A não ser que se tenha a visão de que, na saúde, o Estado deve fazer tudo, para todos. Sobreviveria o serviço nacional de saúde a essa opção? Se sim, a que custo?

Qual é a conclusão? Que faltam muitos números para que se possa ter discussões e decisões informadas e não apenas determinadas pela ideologia. É essa informação, essa transparência, que permitirão trazer os cidadãos, de novo, para a política. Na pressão e organização desse escrutínio os media tradicionais têm um papel insubstituível. Jogar-se-á aí o seu ressurgimento?

 

Alberto Castro, economista, professor universitário

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