Produtividade em tempos de cólera/Covid

O teletrabalho introduziu a questão da produtividade ou, da falta dela, o que tem convocado uma reflexão sobre o significado do “ser produtivo”

A data de 20 de junho, situada ali entre os santos populares, costuma passar indiferente à maioria, não obstante se comemorar o Dia Mundial da Produtividade. Muito (mas não tanto quanto se devia) se tem falado de produtividade nos últimos meses, principalmente à custa da Pandemia que domina e preenche todos temas, antigos ou novos.

Realmente, a massificação do teletrabalho neste período (re)introduziu a vexata quaestio da produtividade ou, talvez melhor, da falta dela, o que tem convocado uma reflexão sobre o significado do “ser produtivo” por estes dias, num quadro que obedece a três novas características: digitalização, descentralização e ausência de vigilância ou controlo pela entidade empregadora.

Avaliar, ou, pelo menos, tentar avaliar, o impacto do teletrabalho na produtividade é tarefa hercúlea, reservada aos especialistas. No entanto, isso não impede que, empiricamente, e confrontados com a realidade em nosso redor, possamos, com maior ou menor grau de exactidão, chegar a algumas conclusões sobre a produtividade pré e pós Covid-19. A primeira constatação que podemos fazer é que Portugal sofre, talvez desde sempre, de um problema crónico de baixa produtividade. As causas deste défice estão bem estudadas e são multifactoriais, ora resultando de um problema agudo na qualificação e formação dos nossos profissionais, ora partindo de uma gestão que, demasiadas vezes, ainda precisa de se profissionalizar e posicionar no mercado. As consequências económicas e sociais da baixa produtividade nacional, pelo contrário, ainda merecem investigação mais aturada, seja para determinar o seu impacto macro e microeconómico, seja para compreender os seus efeitos em termos de valorização profissional dos trabalhadores.

Ora, perante este cenário, não seria por certa uma pandemia global e a adopção, para um grande número de profissionais, do teletrabalho que viria resolver os problemas crónicos que o país sempre enfrentou neste domínio. Todavia, a grande questão é saber se, apesar de não ter melhorado, a produtividade piorou.

Aqui, e ainda empiricamente, podemos trazer para cima da mesa argumentos em ambos os sentidos. Do lado que aponta para uma descida generalizada da produtividade, basta-nos pensar que a “suspensão” prolongada e obrigatória, senão da democracia, pelo menos da vida normal das pessoas, deixou certamente um lastro de consequências na saúde psicológica do país (nunca tendo sido tão relevante a socialização no trabalho, de que estávamos mais dependentes do que julgávamos). E não é preciso ser especialista para afirmar que só trabalhadores e empresas com saúde (psicológica e financeira) podem ser produtivos. Mesmo quem continuou com a sua actividade, à distância, fê-lo sabendo que o teletrabalho implica acrescidas exigências de organização pessoal e profissional: os horários passam a ser geridos em vez de impostos, adquirindo alguma fluidez (tantas vezes no sentido de ultrapassarem o horário antes estabelecido), o trabalho é controlado sobretudo do ponto de vista do resultado, dando-se menos valor à presença física, o poder de subordinação e de controlo da actividade mitiga-se (ainda que se adapte) e a conciliação entre a vida privada e a vida profissional torna-se mais exigente. Principalmente neste domínio, não se compreende como é que o Governo pode supor sequer que é possível a um trabalhador continuar produtivo em teletrabalho ao mesmo tempo que cuida dos filhos e outros dependentes…

Do outro lado da equação, podemos conceber que a produtividade em teletrabalho seja até maior, à conta da diminuição do absentismo (que, convenhamos, facilitada pelo confinamento geral e obrigatório), a diminuição das fontes de stress (bastando referir a ausência de desgastantes viagens pendulares, o quase fim das quezílias de escritório ou o conforto do lar).

Não podemos, evidentemente, chegar a conclusões definitivas, até porque a discussão parece mais relevante. No entanto, estamos certos de que, neste “novo normal”, reabrir as empresas e retomar os postos de trabalho físicos será como regressar de um “país estrangeiro”. Nesse regresso, e como diz o Poeta, o viajante «chega finalmente onde sempre esteve / e encontra tudo no seu lugar / o passado no passado, o presente no presente».

Numa derradeira nota, a produtividade, essa, continua e continuará por aí, ou desprezada, ou vítima de inconsequentes chavões políticos e sound bites. Haja coragem para perceber que, se Portugal não quer continuar a ser ultrapassado no campeonato europeu, tem de encarar este domínio como prioritário, mobilizando recursos e estratégias sérias que permitam a resolução definitiva de um problema que é também causa e consequência de muitos outros males.

 

Eduardo Castro Marques, advogado de laboral na Cerejeira Namora, Marinho Falcão

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