Propaganda eleitoral

Se a demissão de Cabrita ontem, a um par de dias de o governo sair de funções e com eleições já marcadas para janeiro - motivada por algo em que sempre recusou responsabilidades, num rol de casos graves que marcou mas não impediu todo o seu percurso como ministro da Administração Interna -, não chega para percebermos que o PS entrou abertamente em campanha eleitoral (há que afastar quem pode prejudicar...), basta escutar os seus ministros por estes dias.

Entre anúncios do fabuloso investimento que aí vem, disparado da bazuca europeia, claro; ajudas garantidas aos pais que terão de ficar em casa na semana que o governo decretou de férias obrigatórias para assegurar que não levam covid para escola depois do Natal - até lá, é fartar, vilanagem! -; e apoios para aplacar a subida a pique no preço da gasolina (mesmo que sempre tenham recusado liminarmente qualquer medida que promova os combustíveis fósseis), é escolher. E há muito por onde.

Fala-se nas fantásticas e corajosas medidas criadas pelo governo para ajudar os portugueses a enfrentar os inúmeros problemas gerados pela pandemia. Sublinha-se o desemprego em mínimos, apesar da crise brutal que atravessam ainda vários setores. Sobe-se o salário mínimo aos 705 euros - e a ministra que tutela a área até garante que irá arrastar os demais nessa curva ascendente, apesar de até agora só ter contribuído para engordar a fatia de portugueses remunerados pelo patamar inferior. Lembra-se os aumentos salariais, que vêm agarrados à inflação porque o chumbo não permitiu levar a cabo a ambição do governo - ainda que o peso dos impostos sobre o trabalho não se altere senão para pior, impedindo que mais dinheiro chegue aos bolsos dos portugueses. E até se anuncia que se está a trabalhar num método para os portugueses que daqui trabalham para fora possam contribuir para o nosso bolo fiscal e da previdência. Como muitos deles desejam, garante Ana Mendes Godinho - mesmo que provavelmente não desconfiem dessa veia masoquista que os leva a desejar que o Estado lhes sugue mais do que a maioria dos restantes países europeus.

Basta ver que Portugal foi dos poucos países em que a carga fiscal sobre os rendimentos do trabalho subiu em pandemia, dois anos seguidos, com o peso do IRS e dos descontos para a Segurança Social a fixar-se agora nuns expressivos 41,3%.

Para as empresas, as palavras são parcas - parecem pouco ou nada ter feito para segurar a economia e os seus trabalhadores, mesmo quando as mais incompreensíveis decisões foram sendo tomadas. Resiliência precisa-se, também aqui, diria Temido, quiçá de lágrima no olho, recordando que o Estado, liderado por este governo, sabe o que é melhor para todos nós.

A desonestidade de se continuar a comparar os efeitos e as ferramentas de ação na crise atual - comum a todo o mundo e à qual a Europa respondeu com medidas concertadas e de uma generosidade sem precedentes - com as da anterior, fabricada pela péssima governação nacional e consequente quase falência do país, que obrigou a pedir ajuda externa e aceitar os termos em que ela poderia chegar-nos, sob pena de afundar Portugal ainda mais o buraco, é inenarrável. Mas toda a esquerda e o governo continuam a não ter pejo em fazê-la. Como não hesitam em chamar a si os créditos de uma resposta que foi e continua a ser, na sua parte pública, decidida e viabilizada por Bruxelas e apenas executada pelo governo. E que tem o inestimável contributo e compromisso de privados e setor social, desprezado por quem nos governa - a pontos de tomar medidas estruturais, numa última tentativa de fazer aprovar o OE, sem consultar os parceiros sociais.

É bom que os portugueses tenham em mente, quando votarem, o que de facto receberam deste governo: aumento recorde e para um número recorde de funcionários públicos, traduzido em mais despesa; desprezo pela iniciativa privada; desrespeito pelos profissionais de saúde, pelos empresários, pelos parceiros sociais, por setores de atividade inteiros. E desresponsabilização total por todos os passos dados em falso, independentemente da gravidade dos seus efeitos.

Que a memória não seja curta para toda a propaganda que aí vem.

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