Protestos em tempo de covid-19

Depois de meses de confinamento e um esforço gigante de (quase) toda a gente para conter o novo coronavírus, os ajuntamentos de milhares de pessoas ameaçam reverter os avanços que se conseguiram

A visão de milhares de pessoas de punho levantado a cantar palavras de ordem enquanto marcham pelas ruas, pedindo o desmantelamento do racismo estrutural que infeta a sociedade americana, é incrivelmente poderosa. A sua causa é justa. Desta vez, vemos nos protestos pessoas que não costumavam gritar “Black Lives Matter” e nem eram dadas a manifestações públicas.

A pressão surtiu efeito quando os agentes da polícia responsáveis pela morte de George Floyd foram presos e acusados, corrigindo o falhanço inicial das autoridades que deu origem aos protestos. Mas as manifestações continuam, pela terceira semana consecutiva, e os líderes dos protestos não dão sinais de quererem parar. É impossível fugir à questão: então e a covid-19? A pandemia certamente não fez um intervalo pela justiça social.

Depois de meses de confinamento e um esforço gigante de (quase) toda a gente para conter o novo coronavírus, os ajuntamentos de milhares de pessoas ameaçam reverter os avanços que se conseguiram. É certo que estas marchas são ao ar livre e não em espaços interiores, o que diminui o risco, mas ainda assim tal ajuntamento de pessoas é o inverso de tudo o que as autoridades de saúde nos andaram a pedir desde fevereiro. Já acabaram os receios? Como se justifica isto?

Em Los Angeles, um realizador que tem participado nos protestos disse-me que as evidências apontam para que o maior perigo esteja nos pacientes mais velhos e que a maioria dos manifestantes são jovens. Ele próprio já teve covid-19 e recuperou. Disse que não sabia se estava imune ou não, mas não vê um risco tão grande em ir para a rua quanto a exposição noutras situações.

Outras pessoas com quem falei expressaram receio e procuraram manifestações com cumprimento de distância social, como as que têm decorrido no vale de São Fernando, onde são os estúdios da Universal. Tanto no parque de North Hollywood como nas caminhadas de rua as pessoas mantêm-se afastadas umas das outras. Será suficiente?

Para algumas pessoas não, e por isso têm escolhido fazer militância digital, usando as suas redes sociais e participando em campanhas de donativos a organizações que apoiam a causa da justiça racial. Houve também uma iniciativa de moradores que acenderam velas nas suas varandas e janelas durante 8 minutos e 46 segundos, o tempo que o polícia Derek Chauvin passou ajoelhado no pescoço de George Floyd até o asfixiar.

Nos comunicados das organizações que estão a mobilizar-se nestes protestos, com a Black Lives Matter à cabeça e outras entidades locais, como a Women’s March LA, há um foco grande nas medidas de prevenção da covid-19 – usem máscara, desinfectem as mãos com frequência, mantenham distância social. Usem tambores em vez de gritar.

Mas o que se viu quando polícias em várias cidades dispersaram a multidão à força foi o uso de gás lacrimogéneo, desenhado para irritar as mucosas e provocar uma dor intensa que deixa as pessoas a tossir, espirrar e lacrimejar durante bastante tempo. Centenas caídas pelo chão a tossirem em agonia parece uma tática estupidamente irresponsável da polícia numa situação já bastante perigosa.

Foi isso que o Dr. Anthony Fauci avisou este fim-de-semana, expressando o seu receio sobre o que estas manifestações vão trazer em termos de propagação de covid-19.

Porque é que pessoas que até agora cumpriram o confinamento e aceitaram a derrocada da economia apoiam estes protestos?

Eis o contexto. A comunidade afro-americana foi a mais severamente fustigada pela covid-19. De acordo com números divulgados em maio pelo APM Research Lab, a taxa de mortalidade entre afro-americanos é quase o triplo em relação à população branca e hispânica. A covid-19 matou 1 em cada 2.000 negros nos Estados Unidos.

E de acordo com os dados de um estudo publicado em agosto passado no Proceedings of the National Academy of Sciences, a possibilidade de um homem negro ser morto pela polícia nos Estados Unidos é de 1 em 1.000.

Em ambos os casos, são números trágicos e alarmantes que dão contexto ao que se está a passar nas ruas: uma população que chegou ao limite, rodeada de morte e brutalidade. Se a covid não os matar, a polícia irá fazê-lo, ouvi. A sensação é de que não têm escapatória.

Para muitos manifestantes de outras etnias, o que se tem passado mostrou-lhes pela primeira vez que as acusações de brutalidade policial tinham razão de ser. Também porque esta morte se seguiu ao assassinato de Ahmed Aubrey, baleado por dois homens brancos que o caçaram numa carrinha enquanto ele corria pelas ruas do seu bairro. E aos vários episódios de “Karens” e “Kevins” a chamarem a polícia por causa de afro-americanos que estavam a tomar conta da sua vida – um a observar pássaros, outro a fazer uma entrega. Os episódios sucedem-se e a omnipresença de smartphones e redes sociais permitem circulá-los sem parar.

É tudo isso, juntando à pressão do confinamento, ao desemprego, à terrível resposta do governo federal à pandemia e à polarização aguda dos campos que explica como é que as mesmas pessoas que cumpriram as regras de mitigação da covid-19 estão agora a arriscar-se nas ruas.

É preocupante, não há que o esconder. Será importante que as pessoas que estão a participar nos protestos tomem medidas de precaução, façam testes à covid-19 e se isolem dos familiares e amigos que continuam em casa. Nunca há um momento conveniente para ir para a rua gritar, mas este é particularmente difícil. As mudanças de que precisamos são estruturais. Esperemos que se consigam, sem pôr em causa o progresso da batalha universal contra o vírus.

Recomendadas

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de