QAnon. Como se formou a tempestade conspiracionista

Quem viu as imagens da infame invasão do Capitólio norte-americano, a 6 de Janeiro de 2021, lembra-se do homem envergando cornos e pêlos de bisão na cabeça que é conhecido como "Xamã QAnon."

Hoje, longe das armas e das bandeiras que empunhou naquele dia, Jake Angeli está na cadeia enquanto aguarda julgamento, acusado de seis crimes. A sua distância da realidade é tão grande que fez greve de fome durante os primeiros dias de detenção, porque não lhe davam alimentos biológicos no estabelecimento prisional. Ele, como tantos outros conspiracionistas QAnon, não percebeu ainda a gravidade do que está a acontecer e as consequências do assalto ao centro do poder.

Mesmo com todas as evidências de que Donald Trump não ganhou, Joe Biden foi empossado presidente e a "tempestade" que ia virar o mundo político do avesso não aconteceu, o movimento QAnon continua a manter milhões de pessoas sob o seu feitiço, contorcendo-se mentalmente para encaixar as contradições que o fundamentam.

É por isso que o novo documentário da HBO, "QAnon: Into the Storm", realizado por Cullen Hoback e produzido por Adam McKay (o génio por detrás de "Sucession") é uma viagem tão fascinante. Constituído por seis episódios, que são transmitidos ao Domingo, o documentário recua aos confins da internet para perceber onde e como surgiu o fenómeno QAnon, um movimento tão rebuscado à primeira vista que é difícil perceber como é que tanta gente acredita nele.

A premissa é de que "Q", um alto oficial próximo da administração de Donald Trump, resolveu usar fóruns obscuros da internet para lançar mensagens codificadas com informações altamente privilegiadas. Estas mensagens começaram a aparecer em Outubro de 2017 com o intuito de dar a conhecer aos apoiantes de Trump a razão pela qual ele tinha sido eleito e porque era tão odiado: o então presidente fora chamado pelo exército para liderar o governo numa batalha secreta contra a cabala de pedófilos satânicos que controla o mundo, e a sua missão era desmontá-la. Estes pedófilos não só traficavam e violentavam crianças como bebiam o seu sangue e comiam-nas em rituais para permanecerem jovens. Na linha da frente dos satanistas estavam Oprah Winfrey, Hillary Clinton, Tom Hanks, John Legend, Bill Gates e uma lista infindável de celebridades e políticos.

Sob o manto de autoridade, "Q" passou os últimos anos a fazer previsões que não aconteceram. Mas os raros momentos em que algo que escreveu pareceu bater certo com a realidade, ou em que uma mensagem foi ecoada por Donald Trump, bastaram para alimentar a paixão e devoção dos milhões de seguidores convertidos.

O documentário da HBO mostra como estes seguidores são pessoas anteriormente normais, muitas das quais votaram em Barack Obama nas eleições de 2008 e 2012, e que caíram numa espiral de conspirações em que tudo parece ser uma descoberta monumental. Construiu-se uma autêntica indústria em torno do movimento QAnon, com intérpretes das mensagens apelidados de "bakers" e influenciadores Q que se tornaram populares pelos vídeos a analisar os eventos em torno do movimento.

Mas o que é central nesta história é o papel dos fóruns (primeiro 4chan e depois 8chan), que permitiram a sua disseminação alargada pela sociedade norte-americana.

São fóruns onde a liberdade de expressão é absoluta e há uma paleta nauseabunda de horrores, onde os utilizadores não se coíbem de discutir todo o tipo de violência, abuso e conteúdos indigeríveis por pessoas normais. Tal como se percebe no documentário, estes fóruns podem existir devido ao conceito único de liberdade de expressão que existe nos Estados Unidos, onde há muito menos restrições que noutros países ao que se pode dizer e escrever.

Mas como se explica que ideias tão rebuscadas e comprovadamente falsas tenham capturado as mentes de tanta gente? É isso que o documentário, até agora, não conseguiu explicar, estando mais interessado em descobrir a identidade de "Q" . Os absolutistas preferem desfazer casamentos, deixar de falar com os filhos, cortar relações com a família e perder o emprego a afastarem-se do movimento. E isso é um cenário aterrador: que uma teoria inventada por alguém na internet se tenha tornado num culto até à morte, mais importante que qualquer relacionamento da vida real que existia na vida dos seus seguidores.

Mais alarmante ainda é a natureza circular da dissonância cognitiva. Uma conspiração destas nunca pode ser provada falsa na cabeça dos seguidores. Há sempre uma justificação alternativa para algo que não aconteceu ou para as evidências do que aconteceu realmente. Tudo o que é externo é falso; só o que vem de dentro é verdadeiro. O mecanismo dá aos seguidores a impressão de que chegaram sozinhos àquelas conclusões e que fizeram a sua pesquisa de forma independente. Na ânsia de fugirem ao "controlo da mente" dos meios tradicionais, caíram numa matriz de onde será impossível saírem ilesos.

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