Opinião: Rosália Amorim

Quando as estatísticas nos iludem

(Miguel Pereira/Global Imagens)
(Miguel Pereira/Global Imagens)

O desemprego desceu? Como é possível?

Os números do desemprego vão continuar a abrir noticiários nos próximos longos meses. Quase 23% dos empregados foram impedidos de trabalhar entre abril e junho. Na prática, um quarto do país ficou parado, sem trabalhar, sem criar riqueza. Este número de trabalhadores forçados a parar duplicou face ao primeiro trimestre e quase quadruplicou face ao segundo trimestre de 2019, indica o Instituto Nacional de Estatística (INE).

Após seis anos de bom comportamento no emprego, os números conhecidos nesta semana preocupam mas não surpreendem. Fruto do confinamento, mostram a devastação criada pela pandemia.

Para vários economistas a procissão ainda vai no adro. Terminado o regime de lay-off simplificado no final de julho e depois de atravessarmos os meses quentes de agosto e setembro, espera-nos um outubro de despedimentos. Os players económicos dizem não aguentar os postos de trabalho com uma dinâmica tão anémica da economia. Mês após mês, a confiança dos consumidores não aumentou o suficiente para fazer disparar o consumo e os receios de ficar sem emprego adensam-se entre as famílias.

Outro fenómeno excecional é a “camuflagem” do desemprego já que muitos dos que não têm trabalho ficaram impedidos de o procurar durante o segundo trimestre, devido ao recolhimento. Isso fez que os desempregados não se pudessem classificar como tal – não conseguiram procurar ativamente trabalho e também não havia ofertas -, logo passaram a ser classificados como inativos.

No novo normal tudo tem de ser reinventado, até a forma como são contabilizados os desempregados. A inatividade forçada, a que foram sujeitos muitos portugueses, provoca uma descida do desemprego no segundo trimestre. De acordo com o INE, a taxa de desemprego diminuiu para 5,6% da população ativa, “valor inferior em 1,1 pontos percentuais (p.p.) ao do trimestre anterior e em 0,7 p.p. ao do trimestre homólogo de 2019”. Mas alguém acredita que estes números espelham a verdadeira taxa de desemprego do país?

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