Opinião

Quando o Homem vencer a morte

José Pereira dos Santos (foto cedida pelo próprio)
José Pereira dos Santos (foto cedida pelo próprio)

Todos temos ouvido dizer que, após a pandemia, nada voltará a ser como dantes. Não partilho essa opinião.

Na Grande Guerra de 1914-1918, morreram na Europa cerca de 10 000 000 soldados, dos quais mais de 10 000 eram portugueses. Morreram 7 700.000 civis. Houve mais de 21 000 000 de feridos, dos quais, 3 000 000 definitivamente incapazes.

Como se não bastasse, a Gripe Espanhola que, em Portugal, ficou conhecida pela Gripe Pneumónica, matou no mundo entre 20 000 000 a 100 000 000 de pessoas – ninguém sabe ao certo – dos quais 2,3 milhões na Europa e 100 000 em Portugal, numa altura em que a população mundial não chegava aos dois mil milhões de pessoas, contra os mais de 7 785 000.000 atuais.

Entre 1914 e 1919 morreram, na Europa pela peste e pela guerra, mais de 20 000 000 de pessoas, numa altura em que a população total, sem a russa, era de 360 000 000.

Seguiram-se os “loucos anos 20”, tempo de grande desenvolvimento económico, técnico e científico e, sobretudo, artístico e social. As pessoas fartas de desgraças queriam viver e gozar a vida.

Hemingway escreveu “Paris é uma festa”. É verdade que nada ficou como dantes, mas foi no sentido de mais desenvolvimento, mais capitalismo, mais criatividade, mais riqueza e mais prazer em todos os sectores da vida social.

Será exatamente o que virá assim que a pandemia atual termine. O que mudou agora foi a postura coletiva perante a doença. O grande ausente desta vez é Deus.

As grandes e pequenas epidemias e pandemias dos séculos anteriores eram vistas como castigos divinos pelos maus comportamentos humanos. As 10 pragas do Egito foram o castigo de Deus por manterem o Povo Eleito em cativeiro. A partir daí, todos os cataclismos naturais eram vistos como castigos de Deus, que destruiu Sodoma e Gomorra por causa dos maus hábitos dos seus habitantes.

Ao terramoto de 1755 em Lisboa, seguiram-se “autos da fé” com a inquisição a queimar hereges acusados de terem provocado a ira divina. Voltaire escreveu no “Poema sobre o desastre de Lisboa”: “Direis vós, perante tal amontoado de vítimas: / «Deus vingou-se, a morte deles é o preço de seus crimes»? / Que crime, que falta comentaram estes infantes / Sobre o seio materno esmagados e sangrantes? / Lisboa, que não é mais, teve ela mais vícios / Que Londres, que Paris, mergulhadas nas delícias? / Lisboa está arruinada e dança-se em Paris.”

Na mesma época, em 1771, houve peste na Rússia e, em Moscovo, a população juntava-se em grande número em frente a um ícone da Virgem Maria e espalhava o vírus. O arcebispo metropolita Ambrósio, removeu secretamente a imagem. O povo ao saber disso, atacou o mosteiro onde ela se encontrava e estrangulou-o até à morte.

Dantes, faziam-se procissões de desagravo a Deus e morriam mais pessoas. Desta vez, não houve procissões, nem multidões em Fátima no dia 13 de maio. Na Páscoa, festa mais importante do cristianismo, o Papa falou sozinho na Praça de S. Pedro vazia.

As ditaduras teocráticas, medievais, saudita e iraniana fecharam Meca e o mausuléo do Imam Reza em Mashhad e a grande mesquita de Qom.

Israel fechou as sinagogas.

A pandemia já não é vista como um castigo de Deus pelos pecados dos homens. Ainda há um ou outro fanático de várias religiões a clamar que é a culpa dos homossexuais e outras idiotices semelhantes, mas já poucos lhes são ouvidos.

Alguns padres católicos ainda quiseram lançar culpas ao governo pelo encerramento dos lugares de culto, mas a ministra da saúde, com inteligência, entregou a Deus o que é de Deus e disse à Igreja que organizasse o 13 de maio como entendesse.

Ora, a Igreja optou, e bem, por confiar mais na ciência que na fé, e Fátima ficou fechada. Isto porque houve uma mudança de paradigma. O responsável pela pandemia não é Deus, mas o homem, por si só, sem necessidade da intermediação Daquele. Pois, já nem sequer se aceita que tenha havido uma origem natural. Muitos acreditam que o vírus foi criado em laboratório.

O primeiro-ministro da Austrália e o presidente francês, entre muitos outros, pedem explicações à China. No Apocalipse, o apóstolo João viu os quatro cavaleiros que hão de conduzir à Grande Tribulação final, que são a Peste, a Guerra, a Fome e a Morte. Os homens já quase erradicaram a fome no mundo, e a guerra, apesar de tudo é, hoje, mais rara que no passado. Falta vencer a morte e, a peste, é portadora da morte.

Ninguém se conforma que a pandemia não seja vencida, porque a crença absoluta na ciência, não nos permite admitir a nossa impotência. O trabalho e a morte são as consequências do pecado original. Foram anátemas lançados por Deus contra Adão, o homem pecador.

Com a automação e a robotização, a maioria das tarefas penosas são, hoje, desempenhadas por máquinas. Pouco a pouco, o Homem está a vencer o trabalho. Falta-lhe vencer a Morte. Já fez grandes avanços. A mortalidade infantil diminuiu drasticamente. Em 100 anos, a humanidade cresceu quatro vezes mais que nos 20 000 anos anteriores. A longevidade atingiu médias impensáveis até há poucos anos. Por isso, nesta pandemia, os santos a que nos votamos, não são mais os dos altares, mas os dos laboratórios.

Os super-heróis que nos ajudam a vencer o mal não são o super-homem, nem o Robin dos Bosques, são os médicos e os enfermeiros. Como vaticina Yuval Noah Harari, quando o Homem vencer a morte, tornar-se-á “Homo Deus” e, nessa altura, deixará de haver, definitivamente, lugar para apelar à intervenção divina. O Homem dirá: “Dieu c’est moi.” Mas ainda lá não chegamos e a soberba é um pecado mortal.

José Pereira dos Santos, advogado

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Outros conteúdos GMG
Hoje
Fotografia: Gerardo Santos/Global Imagens

Economia portuguesa afunda 16,3% entre abril e junho

Visitantes na Festa do Avante.

Avante!: PCP reduz lotação a um terço, só vão entrar até 33 mil pessoas por dia

covid 19 portugal casos coronavirus DGS

Mais 235 infetados e duas mortes por covid-19 em Portugal. Números baixam

Quando o Homem vencer a morte