Opinião

Quando o mercado livre não funciona

Golden Gate em São Francisco, Silicon Valley

O argumento de que a regulação atrasa ou bloqueia o ímpeto inovador está esgotado

Numa noite de temperatura primaveril na habitualmente fria São Francisco, deparei-me com ruas repletas de grupos de sem-abrigo à porta de bares, restaurantes e lojas de tatuagens. Reclamavam controlo sobre os passeios, por vezes provocando os transeuntes. A noite caía e lançava sobre estes quarteirões no centro da cidade uma sensação de insegurança e perigo iminente. Depois de ter passado o dia em conversas com executivos da Uber e especialistas em condução autónoma, espatifei-me contra a realidade de São Francisco. Que é também a de todo o vale do silício: uma gigante experiência de contradições onde se vê tudo e o seu contrário.

A imagem da cidade que conhecemos das canções esbarra com os apartamentos lotados, onde várias pessoas se encavalitam para aliviar o peso das rendas exorbitantes. As paisagens magníficas com a Golden Gate no fundo coexistem com as ruas sujas, as obras intermináveis e a insegurança crónica. Silicon Valley é um caldeirão de contra-cultura, mas também uma irmandade onde o patriarcado exerce o seu domínio. É o vale onde garagens deram origem a empresas revolucionárias e onde investidores tradicionais esbardalham milhões em startups ridículas. É o sítio onde a elite liberal apodrece de rica graças à alergia dos conservadores a qualquer tipo de regulação.

Pois bem: está visto que o mercado livre deixou de funcionar em Silicon Valley. O argumento de que a regulação atrasa ou bloqueia o ímpeto inovador está esgotado. Não há inovação que justifique os efeitos arrasadores da falta de controlo sobre as grandes tecnológicas do mercado. Tim Cook, CEO de uma das maiores (Apple), admitiu isso mesmo esta semana numa entrevista televisiva à Axios que passou na HBO. Ele, como Zuckerberg, Sandberg, Bezos e tantos outros, sabe que terminaram os cheques em branco dos legisladores.

O comportamento horripilante de Mark Zuckerberg e Sheryl Sandberg nos últimos dois anos, tal como descrito num artigo devastador do New York Times, é a prova cabal de que alguém tem de pôr mão nisto. Não sei o que será preciso acontecer para que se perceba que não regular este sector tem gravíssimas consequências para a democracia, a privacidade e o tecido social. Tim Cook disse, e bem, que as tecnológicas não devem temer estas regulações e que, embora nenhuma delas desenvolva produtos com objectivos negativos, têm de acautelar a sua utilização nefasta por terceiros mal-intencionados.

Uma das maiores ironias desta situação é que os magnatas que enriqueceram à conta de startups e gigantes tecnológicas beneficiaram de uma política de baixa regulação que deu o controlo às leis do mercado livre. É o sonho conservador – mínima intervenção governamental, impostos baixos e uma crença generalizada no equilíbrio gerado entre oferta e procura. Seja para boleias na estrada, drones a entregar encomendas ou “likes” no telemóvel.

No entanto, estes líderes assumiram-se quase sempre como estandartes das ideologias liberais que, nos Estados Unidos, estão representadas à esquerda e assentam bem na progressiva Califórnia. É essa posição de “elite costeira” que os põe agora a jeito de sofrerem uma intervenção regulatória impensável há alguns anos, para mais durante uma administração republicana.

Está na altura de repensar aquilo que queremos realmente de um ecossistema inovador. A inovação pode ser mais rápida quando não há obstáculos nem grandes regulações a cumprir, mas a que preço? Não é verdade que seja uma dicotomia estanque; é possível ter empresas inovadoras, de alta tecnologia e viradas para o lucro, em que são acauteladas questões éticas e humanitárias. O que elas não devem é ter de competir com outras que se estão nas tintas para os meios, os fins e os resultados, desde que produzam slides bonitos para os investidores a cada trimestre.

O que acontece em Silicon Valley faz ondas em todo o mundo; por isso, será bom que o novo congresso, em funções a partir de janeiro, imponha a regulação necessária. O “mercado” não tem sempre razão.

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