Opinião: João Coutinho

Quando tem de acontecer, acontece. E vice-versa

15. Casamento

Há coisas que quando tem de acontecer, acontecem.

Há uns anos comprei um fato bege. Tinha um corte lindo, assentava-me muito bem, o tecido era suave e leve, perfeito para o verão. A primeira vez que o usei foi num casamento em Espanha. Ainda os noivos não estavam casados e já um pombo me tinha feito cocó em cima, deixando uma mancha enorme na parte da frente do ombro direito. De seguida limpei com água e ainda foi pior. O pombo estragou-me o casamento. Mandei lavar a seco e felizmente saíram as manchas todas. No ano passado tive outro casamento e levei o mesmo fato. A cerimónia foi ao ar livre, estava uma noite fantástica e o lugar era idílico. Ainda na parte do copo-de-água, estava eu sentado numa mesa à conversa quando vem uma rabanada de vento que levanta tudo, incluindo um prato cheio de carne de porco e molho de tomate, que vem direto ao casaco e às calças do meu lindo fato bege.

O Fernando e o Padoca conheceram-se na McCann, em São Paulo. Foram contratados separadamente e no primeiro dia de trabalho, Fernando perguntou ao novo dupla de onde vinha o nome Padoca (no Brasil padoca quer dizer padaria). Padoca respondeu “nasci numa padaria no norte da cidade, a caminho do hospital”. Fernando acrescentou “engraçado, é que o meu pai tem uma padaria, nessa zona”. Em São Paulo vivem 20 milhões de pessoas. Qual é a probabilidade de Padoca ter nascido na padaria do pai de Fernando? De 1 para 20 milhões. Pois é, assim nasceu uma dupla que nunca mais se separou, que trabalhou nas melhores agências no Brasil e nos Estados Unidos, e que ganhou mais de 15 leões e um Grand Prix em Cannes.

O meu fato estava destinado a deixar-me passar mal em casamentos, por isso não lhe dei uma terceira oportunidade e deitei-o ao lixo. E o Padoca e o Fernando trabalham juntos há mais de 15 anos. Há coisas que quando tem de acontecer, acontecem. Quando não tem, é porque não era suposto. Tanto na vida pessoal como no trabalho, há fases em que tudo nos sai bem, emplacamos dez campanhas de seguida, ganhamos todos os concursos, enchemo-nos de prémios. E há outras alturas em que nada sai bem. A única coisa que nos resta fazer é trabalhar no duro e dar o nosso melhor, sempre. Se depois de dar uma primeira e segunda oportunidades as coisas continuam sem acontecer, vá-se lá saber porquê, o melhor é sair e seguir em frente. Vai sempre existir uma série de fatores que estão para lá do nosso controlo e por isso não vale a pena ficarmos chateados a pensar nos “e se”. Se tudo corre de feição, então é agarrar com unhas e dentes todas as oportunidades, convertê-las em trabalho memorável e eficaz, divertirmo-nos ao máximo, porque sabemos que outra fase “fato bege” vem logo ao virar da esquina.

North American Executive Creative Director na VMLY&R NY

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