Opinião

Quando um falhanço é um tremendo sucesso

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Foto: D.R.

Estava à procura de um filme para me entreter enquanto ia de Lisboa para Nova Iorque e acabo por ver um anúncio com 55 minutos

Há uns meses vi no avião um filme chamado Breaking2. O documentário conta a história de três atletas que tentam correr a maratona em menos de duas horas. Segundo médicos e cientistas é humanamente impossível quebrar esta barreira. Durante um ano, uma equipa de conteúdo seguiu a vida de três corredores olímpicos: Eliud Kipchoge (Kenya 35 anos), Zersenay Tadese (Eritreia, 34 anos) e Lelisa Desisa (Etiópia, 27 anos).

A equipa de Breaking2 viajou até aos países de origem dos corredores, para conhecer as suas famílias e documentar os treinos de preparação. Além da parte de captação de imagens e conteúdo, faziam parte da equipa, especialistas de classe mundial em biomecânica, coaching, engenharia, design de produto, psicologia e nutrição desportiva. A data recolhida foi analisada ao pormenor com o intuito de potenciar ao limite o desempenho do nível molecular. Foram produzidos ténis e camisolas, desenhados exclusivamente para a tentativa de quebrar a barreira das duas horas. A pista de F1 de Monza foi a escolhida para a maratona, por oferecer uma combinação de baixa altitude, boas condições climatéricas e curta distância por volta.

2:00:25: foi este o tempo que Eliud Kipchoge fez quando cortou a meta em primeiro lugar, ficando a apenas 26 segundos de quebrar a barreira. Embora este tempo tenha tirado vários minutos ao recorde mundial oficial, não foi suficiente para alcançar os objetivos e também não contou como novo recorde mundial, por ter ocorrido num circuito fechado e não cumprir os padrões da IAAF. A lista de créditos começa a passar mal o filme acaba e vejo que é uma ideia da Nike, em parceria com a National Geographic.

Apesar de não ter cumprido o objetivo de quebrar a barreira das duas horas, Breaking2 foi um sucesso tremendo. O documentário chegou às 231 milhões de visualizações em todas as plataformas, foi transmitido em 67 países, e está disponível em 34 idiomas. Teve uma exposição mediática brutal, correu o mundo. O modelo Vaporfly, criado exclusivamente para esta ativação, é hoje em dia o sapato de corrida mais procurado na Nike. Esta ideia, pela bravura, pela forma como está executada e pelo impacto que teve, foi considerada pelos media como Nike’s greatest failure, ganhando posteriormente um leão de ouro no Festival de Cannes. Ora, eu estava à procura de um filme para me entreter enquanto ia de Lisboa para Nova Iorque e acabo por ver um anúncio com 55 minutos. Como diria o Fernando Pessa “E esta, hein?”.

North America Executive Creative Director na VMLY&R Nova Iorque

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