Opinião: Carlos Brito

Quando visão significa ver ao perto

Fotografia: Sebastien Salom-Gomis/AFP
Fotografia: Sebastien Salom-Gomis/AFP

No contexto atual ter visão significa capacidade de antecipação de cenários a dois ou três dias

Há cerca de meio ano, e neste mesmo espaço, refleti sobre a importância da visão de longo prazo não só para as empresas, mas também para outras formas de organização social, incluindo os próprios países. Afirmei na altura que se há coisa que nos tem faltado é exatamente uma ideia clara “sobre qual deve ser o papel de Portugal no contexto geopolítico e económico em que vivemos”. Pois, como acrescentei, “um país que não tenha uma visão e um projeto de longo prazo no contexto dos países com quem interage, nunca poderá ambicionar a mais”.

Entretanto, o mundo ficou virado do avesso e o contexto no qual aquelas afirmações foram produzidas alterou-se de forma radical. Enfrenta-se hoje uma guerra em nome da saúde pública contra um vírus que se tem vindo a revelar bem mais agressivo do que aquilo que de início se poderia imaginar.

Quer isto dizer que nos dias que correm aquela visão já não é necessária? De modo algum. O que aconteceu é que o horizonte temporal encurtou dramaticamente. No contexto atual ter visão significa capacidade de antecipação de cenários a dois ou três dias. Quarenta e oito horas podem fazer toda a diferença em termos de propagação do vírus.

Embora o balanço só se possa fazer no final, tudo indica que a rapidez da tomada de decisões está na base do sucesso (se é que se pode utilizar a palavra nesta altura!) de países como o Japão e a Coreia do Sul que foi fortemente fustigada logo no início do surto.

Por outro lado, visão significa não apenas capacidade de antecipação mas também de atuação. O que exige liderança, iniciativa, planeamento, organização e um controlo rigoroso e permanente. Como sempre exigiu – só que agora o tempo voa, as condições alteram-se e os prazos são bem mais curtos.

Não sou médico nem especialista em saúde pública. Não me sinto, por isso, habilitado a dizer se a política de “teste, teste, teste” da OMS é a mais correta. Mas uma coisa é certa: ter visão nos dias que correm significa “atuar, atuar, atuar”. Não estamos no tempo em que era possível adiar e empurrar os assuntos com a barriga.

Em suma, enfrentamos uma situação semelhante à de uma empresa com problemas de liquidez. Deve ter uma estratégia de longo prazo, mas aquilo que verdadeiramente conta são as decisões e a capacidade de execução a curto prazo. Porque se este não for superado, aquele nem sequer existirá.

 

Carlos Brito, vice-reitor da Universidade Portucalense

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Outros conteúdos GMG
Hoje
Nazaré Costa Cabral, presidente do Conselho de Finanças Públicas. (João Silva / Global Imagens)

Cenário severo em 2020. Défice nos 9%, dívida em 142%, desemprego nos 13%

O primeiro-ministro, António Costa. Fotografia: António Cotrim/Lusa

Apoios à TAP formalizados “em breve” depois de consultas com Bruxelas

Foto: Fábio Poço/Global Imagens)

Costa promete linha para converter AL em arrendamento para jovens

Quando visão significa ver ao perto