Quatro gajos a falar

Há uma obsessão doentia com o formato televisivo "quatro gajos a falar". Em qualquer momento, num qualquer canal, há sempre quatro gajos a falar. No universo televisivo português, a probabilidade de encontrar quatro gajos a falar é de mais de 50%; excepção feita a segunda-feira à noite quando a dita probabilidade sobe aos 100%. Segunda-feira há N vezes quatro gajos a falar [nx4g], sendo que N é o número de canais portugueses.

E do que é que falam todos estes quatro gajos nestas abençoadas segundas-feiras? Todos falam de bola.

Todos falam de bola, ao mesmo tempo em todos os canais?! Pergunta-me, com um misto de espanto e condescendência antropológica, o extraterrestre que aterrou aqui no quintal.

Sim, respondo eu, deitando os olhos ao chão com embaraço paroquial.

Quatro gajos a falar é uma moda que pegou pelas mesmas razões que pegaram as Crocs há uns anos atrás: porque pareciam giras e práticas, porque eram baratíssimas e porque toda a gente as comprava. Mas, tal como as Crocs não eram giras (excepto para idades mentais até aos 7 anos) mas apenas coloridas – um erro comum que nasce de uma escolha sensorial irreflectida -, também este formato de quatro gajos a falar é apenas foleiro e de plástico; e, embora dure que se farta, também fica com mau aspecto e enjoa passado pouco tempo.

Mas a coisa pegou. Pegou como pega o herpes, para ficar. E porquê? Porque, como o herpes, dá-se bem quando o organismo está debilitado, sem energia, ou porque a gasta na sobrevivência, a combater doenças – no caso das estações de televisão, dívidas.

Quatro gajos a falar é um formato indigente e fácil. Não é preciso gastar-se tempo a pensar, a inventar, a ser criativo – coisa que custa energia e comporta risco. Faz-se um fundo, põe-se uma mesa, convidam-se três gajos (o outro gajo é da estação) e – ACÇÃO! – fala-se.

E há assim tantos gajos que se predisponham a falar? pergunta o extraterrestre.

Há. Isto é terra de faladores. Antes das lojas Golden Visas, antes ainda dos balcões de bancos, havia cafés onde quatro gajos se sentavam a falar. Esses quatro gajos foram agora contratados, a custo zero, ou talvez apenas a custo de café, para falar.

E todos são telegénicos e têm coisas pertinentes para dizer, informação relevante, opinião sustentada, isenção, credibilidade, educação suficiente para elevar o nível da conversa, sentido de humor, inteligência? pergunta o extraterrestre esbugalhando os seus três olhos.

Não! Poucos têm. Praticamente nenhuns. Salvo raras excepções, são só quatro gajos a falar, e o que dizem não é informação mas ruído e redundância.

Para mim, que conheço dezenas de responsáveis, das redacções às direcções, da produção à apresentação, a maior perplexidade, quando reflito sobre a má qualidade da televisão que nos é servida diariamente, é: porque razão gente inteligente, culta, de bom gosto, lida e com estudos superiores (partamos do princípio que Comunicação Social é um curso de qualidade superior) faz tão rasca?

É o que o povo quer! ouvi dizer mais do que uma vez.

(Continua)

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Hoje
O presidente do Novo Banco, António Ramalho, conversa com Teresa Leal Coelho (ausente da foto), presidente da Comissão de Orçamento, Finanças e Modernização Administrativa, durante a audição na Assembleia da República, Lisboa, 21 de março de 2019.  ANTÓNIO COTRIM/LUSA

Ramalho: “DG Comp não tem particular simpatia pelos bancos portugueses”

António Tomás Correia, presidente da Associação Mutualista Montepio Geral

( Gustavo Bom / Global Imagens )

ASF inicia processo de avaliação da idoneidade de Tomás Correia

Rodrigo Costa, CEO da REN Fotografia: MÁRIO CRUZ/LUSA

Rodrigo Costa: “Já pagámos 127,5 milhões” de CESE

Outros conteúdos GMG
Conteúdo TUI
Quatro gajos a falar