Que futuro para uma PME após o DMA?

Esta é uma questão com a qual me tenho debatido nos últimos tempos, face à realidade que o mundo - e em particular as pequenas e médias empresas - atravessa, em paralelo com os desenvolvimentos regulatórios a nível supranacional. Falo especificamente da Digital Markets Act (DMA), também conhecida por Lei dos Mercados Digitais, e que consiste numa proposta da Comissão Europeia para potenciar a competitividade das empresas no espaço digital europeu, beneficiando, sobretudo, os novos players deste setor.

Se aprovada, prevê-se que a DMA condicione substancialmente a atividade das grandes empresas tecnológicas que operam no mercado europeu e, por conseguinte, que impacte, involuntariamente, PME, que têm vindo a apostar na utilização de produtos e serviços destas organizações para potenciarem o crescimento do seu negócio. Se a aplicação de uma medida como esta já seria preocupante antes da pandemia, com o espoletar desta e com a aceleração da transformação digital das empresas por forma a enfrentarem os desafios do atual contexto, o cenário tornou-se mais alarmante.

Mas permitam-me que revele um pouco da minha experiência enquanto gestor de uma PME, para que possam compreender quão importante a tecnologia tem sido para o meu negócio e quão limitadora a nova regulação pode ser para os pequenos negócios fora do setor da tecnologia.

Em 2016 decidi iniciar um novo projeto profissional, uma escola dedicada ao ensino da língua portuguesa para estrangeiros, que, no seu início, se destacava pelos seus aspetos presenciais, desde logo a proximidade entre alunos e professores, e a ligação com o estilo de vida lisboeta. Com a escalada da pandemia, o negócio parou e, nesse sentido, tive de procurar alternativas (e rápido).

A solução era clara: precisava de criar uma oferta digital, como aulas de grupo online. Ao mesmo tempo, em conjunto com a equipa, tivemos de reorientar tudo, desde o website, formato dos conteúdos, e estratégia de marketing. Quase parecia estar a iniciar o negócio novamente, mas desta vez a diferença estava no salto para o mundo digital - era inevitável.

Com esta mudança, professores, alunos e restante equipa reforçaram a utilização de algumas ferramentas digitais que já faziam parte do dia a dia da empresa: o Google Drive tornou-se um reservatório de informação a partilhar com os alunos; o Google Workspace desempenhou um papel crucial nas operações do dia a dia da escola, e a um custo muito menor do que outros softwares; o Google Sheets passou a ser utilizado no processo de angariação de novos alunos; já o Google Ads passou a ser a nossa principal ferramenta de marketing, que a par das campanhas de Search e YouTube, nos permitiu aumentar a faturação global, com um aumento de mais de 40% nas inscrições em relação ao período pré-Covid; por fim, também as redes sociais, sobretudo Facebook e Instagram, permitiram mantermo-nos conectados com a nossa comunidade online.

Em resumo, reforçar a utilização das ferramentas digitais permitiu-nos expandir o nosso modelo de negócio para o contexto online, o que nos tornou mais fortes do que nunca. A título de comparação, a reação ao segundo confinamento, no início deste ano, mostrou uma capacidade de resposta totalmente diferente, pois o nosso investimento na capacitação digital da empresa permitiu-nos reagir com mais facilidade às adversidades.

Hoje, olho para o futuro da minha empresa com outra perspetiva, mais otimista. Espero poder, a médio prazo, conseguir integrar novas ferramentas digitais na melhoria da experiência de ensino que queremos proporcionar. E como nós, muitas outras PME querem o mesmo: apostar na utilização de tecnologia que lhes permita fazer crescer o seu negócio. E esse é um cenário possível, tal como refere um recente relatório da Catalyst Research, que comprova que as ferramentas digitais ajudaram as PME no aumento das suas receitas (60%), na retenção de clientes (40%), e no aumento das contratações (300%).

Reconhecendo estas vantagens, ao mesmo tempo que sabemos que em Portugal a esmagadora maioria do setor empresarial é constituído por PME, importa refletir sobre o verdadeiro impacto que a nova regulação europeia terá num espetro mais alargado, e não apenas no setor tecnológico. A pandemia tornou-nos mais flexíveis e mais digitais. Procuremos agora não perder essas conquistas e construir novos caminhos para o futuro, assentes na partilha das diferentes ferramentas digitais e no apoio que o Plano de Recuperação e Resiliência poderá aportar ao tecido empresarial.

André Teixeira, Diretor da Lusa Language School

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de