Que não o façam sofrer

Uma vez disseram-me: "Deus queira que nenhum dos meus filhos seja homossexual". Porquê? "Iria sofrer imenso." E com ele o pai, a mãe e todos os que não aguentam o seu sofrimento. Teria de percorrer um caminho difícil, cheio de obstáculos, de armadilhas e túneis escuros. Não por ser homossexual, mas por causa dos outros.

Seria discriminado a todos os níveis - com maior ou menor intensidade, mas seria -, não seria aceite em vários ambientes e grupos, não teria a boa vida dos heterossexuais, sem preconceitos, desconfiança ou desprezo. Teria de viver meio escondido para evitar ser achincalhado pelos seus ou pelos outros; construir um mundo próprio onde poderia ser ele sem medo, ou então teria de viver com medo da vergonha. Teria de ser mais corajoso do que os outros, mais forte e mais resistente - coisa que não se exige aos heterossexuais - caso não tolerasse viver sozinho.

Viveria com a desconfiança de que estava errado, que no fundo alguma coisa deveria estar errada ou não haveria tanta gente a apontar-lhe o dedo, a excluí-lo, a olhá-lo de lado e de cima; ou a simplesmente a tolerá-lo com aquela condescendência sonsa e fofinha do politicamente correto e das lutas partidárias.

Não poderia abraçar, dar a mão ou fazer uma festa em público sem arriscar a que o acusassem em pensamentos ou mesmo em atos de estar a provocar, a exibir-se, a chocar o mundo binário dos heterossexuais. Não poderia ser romântico sem ser ridículo. Seria apontado como uma ameaça à família - e à família com letra grande, à instituição - à civilização, até. Seria para muitos mais um exemplo da imoralidade, da decadência dos valores, da promiscuidade dum tempo sem rigor. Nem menos. Seria um mau exemplo, por exemplo.

A sua fé não seria igual à dos outros, estaria na segunda divisão dos homens de fé; seria um cristão obrigado a bater à porta e esperar com humildade (ou humilhação) que os guardiões do templo o deixem entrar, o aceitem, como se Deus lhes tivesse dado esse direito ou poder, como se fossem os únicos ungidos. Teria de escolher entre uma relação com Deus a dois, sem passar pela comunidade e pela Igreja, ou relação nenhuma. Ou então teria de ser mais valente e corajoso, mais persistente e perseverante do que os outros, do que aqueles que não têm de dar satisfações, levar a sua intimidade a debate, porque a sua orientação sexual assim o permite. A sua maior conquista seria a tolerância: ser tolerado, como se ser tolerado não fosse uma premissa e não um direito adquirido desde o momento em que se nasce e até muito antes, como se fosse admissível alguém ter de exigir ser tolerado. Ser homossexual não é um direito, é apenas ser.

Há um caminho gigante a fazer em defesa dos homossexuais, da sua liberdade, integração e dignidade. E este não é um caminho pela tolerância ou pela não discriminação, mas um trajeto que tem como fim a plena aceitação do próximo. Aceitação plena. Um desafio antes de tudo cristão e civilizacional, sem qualquer cariz político ou moral. Sabemos que alcançámos esta meta como família, comunidade e sociedade quando um pai ou uma mãe souberem do fundo do coração que não irão chorar com o sofrimento pelo qual o seu filho homossexual terá de passar. No fundo, quando a vida íntima de cada um possa ser isso mesmo, íntima.

Jurista

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