Quebrar o Facebook em caso de emergência

No rescaldo da insurreição que deixou o Capitólio dos Estados Unidos em frangalhos e provocou a morte a várias pessoas, o Facebook reinstituiu 25 medidas de protecção que tinham sido utilizadas durante a eleição de Novembro de 2020 para minimizar conteúdos perigosos, incluindo discurso de ódio. Esta operação foi chamada "Break the Glass", numa alusão aos protocolos de segurança que pedem para quebrar o vidro em caso de emergência.

A reacção foi, no entanto, demasiado parca demasiado tarde. A turbulência interna no Facebook gerada pelos ataques de 6 de Janeiro ao Capitólio rapidamente se transformou em raiva e dissidência, porque a gigante das redes sociais teve um papel crítico nos eventos que levaram à violência.

E hoje sabemos tudo isto porque há milhares de documentos, apropriadamente denominados "Facebook Papers", que foram entregues pela denunciante Frances Haugen a um consórcio de 17 meios de comunicação e à comissão que regula o mercado financeiro nos Estados Unidos, SEC.

Mas além de Frances Haugen, que testemunhou ontem perante um comité do parlamento britânico, há agora outro denunciante, cuja identidade se mantém anónima, a clamar que o Facebook tinha consciência do seu efeito pernicioso e não fez o suficiente para o mitigar.

Os Facebook Papers, que estão a ser analisados por meios como Associated Press, CNN, NBC News e outros, mostram como a empresa liderada por Mark Zuckerberg deu prioridade aos lucros em detrimento da segurança dos seus utilizadores e escondeu os resultados negativos da pesquisa interna dos investidores e do público.

Zuckerberg, que ontem enfrentou o mercado na análise dos seus resultados trimestrais, tem encarado esta crise como a maior da sua história e a empresa não se tem poupado a esforços para contrariar a narrativa de Haugen.

É certo que todas as histórias têm várias versões e o Facebook sentirá que está a ser injustamente atacado por todos os lados. Mas não há aqui surpresa nenhuma. Há muito tempo que meios de comunicação, organizações da sociedade civil e especialistas em radicalização vinham apontando para os problemas de desinformação e mobilização nas plataformas detidas pelo Facebook.

Aquilo que a empresa disse que estava a fazer para mitigar esses problemas era vastamente insuficiente e, nalguns casos, inexistente. Mais cedo ou mais tarde, a bomba-relógio iria explodir. É nesse momento que estamos agora.

Deixando de lado os danos reputacionais do Facebook, que ao longo dos anos tem demonstrado enorme resiliência junto dos utilizadores independentemente dos escândalos, o cerne da questão é regulatória. A SEC e o congresso norte-americano têm poder para inflingir golpes transformacionais neste colosso.

O falhanço de tentativas anteriores não determina incapacidade futura; o Facebook pode mesmo ser obrigado a partir-se aos bocados, numa tentativa de limitar o poder transversal das suas plataformas na sociedade e no mercado.

Mudar de nome não vai evitar as consequências. Bem sei que já dissemos isto várias vezes, mas desta vez é mesmo a sério. A fasquia está demasiado alta. Assobiar para o lado não é uma opção.

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