Opinião

Quem é que ainda vê os Óscares?

Helen Mirren antes da entrevista ao vivo na passadeira vermelha, Óscares 2019/Ana Rita Guerra
Helen Mirren antes da entrevista ao vivo na passadeira vermelha, Óscares 2019/Ana Rita Guerra

Só parolos, porque crítico amador que se preze não liga a essas demonstrações de futilidade e a Academia não percebe nada de cinema verdadeiro

No ensaio de preparação para a cobertura dos Óscares, quatro dias antes da cerimónia, a equipa de produção agradeceu efusivamente à imprensa a sua presença neste evento. Foi um momento raro nas lides de Hollywood, onde muitas vezes os jornalistas são tratados como camponeses que deviam estar agradecidos por haver celebridades que falam com eles.

As palavras de reconhecimento vieram numa altura em que a Academia estava a tentar fazer esquecer os passos em falso dos últimos meses. Esta edição dos Óscares, a 91ª, perdeu o apresentador em dezembro, quase teve uma nova categoria que toda a gente achou ser má ideia e quase mandou para intervalo a entrega de estatuetas em categorias técnicas, o que foi considerado ainda uma pior ideia por meia Hollywood. Como pano de fundo, o fantasma da pior audiência televisiva de sempre no ano passado, com uns “meros” 26,5 milhões de espectadores.

Os Óscares são a transmissão ao vivo mais vista da televisão, mas a sua influência tem caído de forma consistente nos últimos anos. E isso não se deve apenas ao facto de a nova geração ser mais amiga do YouTube ou de plataformas de streaming. A própria influência da Academia foi posta em causa nos últimos anos. A falta de diversidade, as escolhas duvidosas nas nomeações, a aparência de um clube de velhos rapazes que se esqueceu de actualizar o calendário para a modernidade – tudo críticas que se tornaram constantes e obrigaram a sérias mudanças em plena era #MeToo.

“Foi pelo dinheiro, nada mais”, respondeu Spike Lee a um grupo de jornalistas na passadeira vermelha quando lhe perguntámos o que achava do tom mais inclusivo das nomeações este ano. O intrépido realizador afro-americano, que no domingo finalmente recebeu o seu primeiro Óscar por “BlackkKlansman”, não mediu palavras: “eles perceberam que filmes protagonizados por negros também podem ser blockbusters”, afirmou, atirando um número ao ar para exemplificar a quantidade absurda de dinheiro ganha por “Black Panther.”

A aparente desorganização deste ano, que podia bem ter resultado num desastre, acabou por levar a bons resultados. A transmissão da ABC (que em Portugal foi da Fox pela primeira vez e deu a melhor audiência do ano) obteve um aumento de 12% na audiência doméstica, voltando a estar muito próxima dos 30 milhões de espectadores. Nas análises pós-Óscares, os críticos explicam que o impulso se deu, provavelmente, porque uma lista de nomeados mais diversa atraiu uma audiência mais diversa, e a presença de filmes muito populares entre os nomeados ajudou. Adiciona-se a performance dos Queen e de Lady Gaga com Bradley Cooper e chega-se a uma fórmula interessante. Continua a haver um encanto nas transmissões ao vivo que nenhum streaming consegue bater; a comunhão de um mesmo fenómeno mundial, à mesma hora, em todo o mundo, celebrando uma indústria que capta sonhos e desejos para lá das fronteiras.

As farpelas que se passearam pela passadeira vermelha este ano não foram tão marcantes como em anos anteriores, e houve poucos momentos que serão lembrados no futuro. Os Óscares #91 não se tornaram icónicos – e parece que era isso que a Academia queria, desta vez, depois de tanta confusão durante a organização.

Quem é que ainda vê os Óscares? A julgar por muitas publicações em redes sociais, só os parolos, porque crítico amador que se preze não liga a essas demonstrações de futilidade e a Academia não percebe nada de cinema verdadeiro. É notável que um filme de pureza cinematográfica indelével como “Roma” tenha causado estranheza a tanta gente pelas dez nomeações recebidas. O reconhecimento da arte de Cuarón foi como um antídoto. “Green Book”, uma escolha mais convencional na essência, tinha-se tornado improvável dada a controvérsia que o rodeou. O facto de ter mesmo recebido o Óscar trocou as voltas a toda a gente, por razões diferentes.

Porquê continuar a ver os Óscares, um desfile de gente privilegiada que se acotovela por uma estatueta dourada? Porque Hollywood é tão mais que isso. Aquilo que ouvi de forma consistente na passadeira vermelha foram histórias de superação, de imigrantes que ousaram ter um sonho, de criativos que querem usar a sua arte para mudar o mundo. Spike Lee, que na sala de entrevistas bebericava o seu copo de champanhe e mandava gargalhadas na cara dos jornalistas, até pode ter razão. Mas existe algo de insubstituível na arte do cinema e o seu poder de influenciar mentalidades e percepções. Só por isso, o motivo interessa muito menos que o resultado. Se a arte não é apenas um reflexo do mundo mas também um agente de mudança, tem de se começar por algum lado.

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