Opinião

Quem mexeu na minha maçã

Foto: DR
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Jobs era conhecido como um ditador que odiava fugas de informação.

No final de 2009, o site Gizmodo escreveu um artigo intitulado “Apple Gestapo: Como a Apple caça as fugas.” Era um ensaio sobre um grupo de trabalhadores da empresa, conhecido internamente como Apple Gestapo pelo trabalho de espionagem que faziam na sede e nas lojas. A missão era prevenir fugas de informação e reportar comportamentos suspeitos ao então CEO Steve Jobs e diretor financeiro Peter Oppenheimer.

O artigo saiu uns quatro meses antes da maior fuga da história da Apple. O engenheiro Gray Powell estava a beber um copo num bar de Redwood e esqueceu-se de um protótipo do iPhone 4, que só sairia no final do verão de 2010. Alguém encontrou o protótipo e vendeu-o por 5 mil dólares ao Gizmodo, que publicou informações detalhadas sobre o smartphone – na altura, drasticamente redesenhado. Steve Jobs reagiu com fúria, exigindo a devolução do protótipo, que o Gizmodo só aceitou após uma troca acirrada de emails e comunicações dos advogados da Apple. Os editores do site escaparam por pouco de julgamento por apropriação de propriedade de terceiros.

Jobs era conhecido como um ditador que odiava fugas de informação. O secretismo da Apple era tão apertado que a grande maioria dos seus empregados não fazia ideia do que se passava em cada departamento de design e engenharia – algo que o sucessor Tim Cook manteve após tomar as rédeas da empresa.

O que aconteceu este fim de semana, dois dias antes do lançamento do novo iPhone 8, foi a segunda maior fuga de informação da história da Apple, a seguir ao iPhone 4 deixado num bar. Alguém de dentro da Apple enviou endereços URL que permitiam descarregar a versão Golden Master do novo sistema operativo iOS 11 a duas publicações, 9to5Mac e MacRumors. A Golden Master é a versão final do software que se torna acessível dentro da empresa antes do lançamento ao público. Os endereços davam acesso à descarga direta a partir dos servidores da Apple: não há dúvida nenhuma de que a fuga veio de alguém dentro da empresa.

Ora aqui temos duas hipóteses: Tim Cook orquestrou esta fuga para agitar as manchetes no fim de semana que antecede um dos lançamentos mais antecipados dos últimos anos; ou alguém quis mostrar o dedo do meio às hierarquias dentro da Apple, estragando a surpresa guardada para hoje. Esta última é muito mais provável.

A Apple é conhecida por gostar de fugas de informação controladas. Um executivo da empresa telefona ou encontra-se com um jornalista bem selecionado e “descai-se” com a informação desejada. Sem rastos de papel ou emails. Normalmente ao final do dia, para que não interfira com as sessões bolsistas. Talvez para assustar um concorrente, talvez para tomar o pulso ao mercado, talvez para aguçar as expectativas dos analistas quando um produto ainda está na fase preliminar de desenvolvimento. Nada disto aconteceu neste caso. O iPhone 8, o iPhone 8 Plus e o super premium iPhone X já estão prontos a revelar, não há tempo para mudar nada nem utilidade em apalpar terreno. Tim Cook também não precisa de chamar a atenção para o evento, do qual se fala há meses – eu diria que há mais de um ano. Esta não foi uma fuga controlada, foi um ato de rebelião interna. E é possível que a Apple arregace as mangas e não descanse enquanto não descobrir quem foi. É só lembrar o que aconteceu ao engenheiro que mostrou o iPad original durante dois minutos a Steve Wozniak, co-fundador da Apple, no dia em que o tablet ia ser lançado: foi imediatamente despedido.

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