Quem o barco leva e quem leva o barco

Se há cada vez mais certezas sobre o valor e o papel fundamental dos trabalhadores nas empresas, nestes tempos têm-se também multiplicado ideias de jerico sobre quem deve pagar uma crise que chegou a todos e não é culpa de ninguém. Dando razão ao povo quando diz que em casa onde não há pão todos ralham sem razão, alguns conseguem, infelizmente, roçar a insanidade. Como quando se pretende que é uma boa ideia castigar quem não perdeu rendimentos. Que paguem eles a crise!, dizem, sem ver que essa foi uma conquista de quem teve a sorte de poder continuar a trabalhar e quis dar o litro para ultrapassar todas as dificuldades decorrentes da pandemia e dos necessários confinamentos.

Felizmente, há quem pense de maneira diferente em Portugal. E, em vez de esmagar o potencial dos trabalhadores, opte por incentivá-los, reconhecer-lhes o esforço e recompensá-los na medida possível - mesmo que seja pequena -, conseguindo com isso plantar as sementes de uma motivação extra cujos resultados beneficiarão todos, no fim da linha.

Aqui contamos o exemplo da Auchan, que determinou um prémio equivalente a mais 20% do salário aos trabalhadores, neles investindo (é mesmo assim, é investimento, não é gasto) um total de 1,5 milhões e oferecendo-lhes um bónus de mais um dia de férias. Dirão alguns que é fácil fazer caridade quando o dinheiro que se faz não nos cabe nos bolsos, mas se este pode ter sido um valor extraordinário num ano em que a distribuição até cresceu em contraciclo, o movimento é tudo menos excecional. É política do grupo partilhar informação e resultados com os trabalhadores, que reconhece como parte mais que fundamental, insubstituível, do negócio. Também na Jerónimo Martins é essa a prática há anos (no ano passado, foram 19 milhões de euros atribuídos em bónus às equipas). E o mesmo na Sonae (mais 9 milhões em prémios).

A cultura do investimento e da recompensa do mérito em alternativa à do castigo e do permanente miserabilismo não só traz resultados às empresas como permite ver com mais clareza quem puxa pelo barco, quem se deixa levar e quem rema contra os demais. Para sairmos melhores desta crise, temos de multiplicar esses bons exemplos e não perpetuar práticas injustas e já injustificáveis, que alimentam a fraca produtividade e os resultados medíocres. Haja visão!

SOBE E DESCE

SOBE: Luís Alves, diretor da Agência Nacional Erasmus+
São mais de 26 mil milhões de euros que reforçam o programa que garante aos estudantes universitários experiências fora de portas, para abrirem horizontes e acrescentarem ao currículo letivo um impagável contacto com outras culturas europeias. Depois de um ano em que a maioria dos jovens teve de estar fechada e arredada de todas as experiências saudáveis que o ensino superior proporciona, é uma excelente notícia. Mais do que nunca, as experiências interculturais e interpessoais devem ser incentivadas.

DESCE: Cadete de Matos, presidente da ANACOM
O processo do leilão para a atribuição de direitos de utilização das frequências do 5G há muito que está debaixo de críticas dos operadores. Mas Cadete de Matos resolveu complicar ainda mais e, num movimento nunca visto na Europa, alterar as regras do leilão ao 60.º dia. É mais um caso com assinatura do presidente do regulador das telecom, num longo rol de medidas ad hoc, decisões unilaterais e ataques aos seus regulados - que o próprio justifica com a sua "independência". Mas que apenas tem resultado num amontoar de queixas, processos judiciais e providências cautelares aqui e em Bruxelas. E numa retração do investimento dos operadores no país. E em atrasos que já atiraram Portugal da liderança para a cauda da Europa na quinta geração móvel. Veremos se o atraso é recuperável e se alguém responderá pela perda que viermos a ter.

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