Quem vai salvar a economia?

O coronavírus assusta pela facilidade de contágio e letalidade, especialmente na população mais idosa e nos outros grupos de risco. À escala mundial, os governos têm conduzido políticas para evitar o colapso dos sistemas de saúde e da economia. As empresas, que, em geral, são quem cada vez mais lidera as transformações da sociedade, têm também atuado no sentido de ajudar a amortecer os efeitos do surto. E os indivíduos têm procurado agir com precaução. Ainda assim, face às características do vírus e às medidas coletivas e individuais, a evolução da pandemia é impossível de prever. Neste contexto de receio e instabilidade, a única certeza que existe é que só com um esforço conjunto de todos os agentes há possibilidade de evitar o colapso dos sistemas de saúde e da economia.

Porque os riscos da pandemia foram inicialmente menosprezados, a ideia de que é essencial reunir as forças de toda a sociedade para enfrentar o surto demorou a ser consensual entre os países. As autoridades de saúde pública foram então fechando a atividade económica para evitar o contágio e, assim, danos mais profundos. Apesar desse isolamento social horizontal (ou seja, de toda a população), a pandemia não desapareceu e a esperada aceleração da atividade económica naturalmente não ocorreu. Nomeadamente face às perdas económicas, ainda maiores no caso dos países endividados, como o nosso, foi crescendo também o debate sobre os benefícios da estratégia de isolamento social horizontal em comparação com o conjunto das perdas resultantes, nomeadamente económicas e de saúde mental.

Passado então o desespero inicial, face ao desconhecido, a alternativa considerada, passou por um isolamento vertical imposto a determinados comportamentos ou grupos. Neste contexto, surgiram então restrições à circulação e, na medida do possível, procedeu-se de modo a manter a economia a funcionar. Desta forma, procura-se a sobrevivência de atividade económica, mesmo que "engolindo o sapo" de concordar com quem inicialmente se criticou. Seja como for, além das empresas, que viram a sua ação limitada, também as famílias precisam de apoio perante a quebra de rendimento. Se com os seus impostos mantêm o Estado, é justo que possam ser ajudados quando necessitam.

Acontece que, em Portugal, o governo não tem dinheiro! Acresce ainda que as políticas económicas implementadas nos últimos anos levaram a um crescente e intenso estrangulamento dos investimentos no serviço nacional de saúde. Além disso, as desigualdades sociais são enormes, havendo um número significativo de pessoas a viver em situações precárias de habitação, em situação de aglomeração, que aumenta a probabilidade de contágio e as necessidades de apoio. Não esperando muito, o governo que vive de impostos e contribuições de todos nós, que pelo menos, proceda de modo a salvar vidas, garantindo assistência de qualidade a quem necessita e que minimize os danos económicos, sociais e psicológicos das populações mais vulneráveis, através de medidas fiscais e sociais.

E quem vai salvar a economia? Perante um Estado incapaz, as empresas e as famílias, que sustentam o Estado, são quem "no final do dia" resta para salvar a economia. É certo, como revelam estudos efetuados, que, à escala mundial, as pessoas já confiam mais no seu empregador do que no governo. Cabe às empresas aproveitarem esta pandemia para mudar ainda mais a maneira como atuam, de modo que a simbiose entre empresas e sociedade fique mais evidente, confirmando-se que existem para dar retorno aos acionistas, mas também para gerar valor para toda a sociedade.

Óscar Afonso, presidente do Observatório de Economia e Gestão de Fraude (OBEGEF) e professor da Faculdade de Economia da Universidade do Porto

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