Opinião: Carlos Brito

Quo vadis Portugal?

Fotografia: Leonardo Negrão/Global Imagens
Fotografia: Leonardo Negrão/Global Imagens

Um país que não tenha uma visão e um projeto de longo prazo no contexto dos países com quem interage, nunca poderá ambicionar a mais

A pré-campanha eleitoral começou morna. Nada de assuntos fraturantes: já ninguém fala em não pagar a dívida, em sair do euro ou da NATO, todos parecem ser a favor de “contas certas” – no fundo, a versão 2019 do velho excel de Vítor Gaspar.

A coisa começou a aquecer nos últimos dias, primeiro com a questão de saber quem ganhou o debate Costa-Rio, depois com o arrufo entre o primeiro-ministro e Catarina Martins e, nos últimos dias, e bem mais grave, com a polémica de Tancos a estourar como uma bomba.

Tudo isto fez passar para segundo plano as diferentes propostas em termos de opções de crescimento, política de impostos, qualidade dos serviços públicos, funcionamento da justiça ou rendas da habitação que vinham a ser debatidas de uma forma bem mais civilizada da que ocorre noutros países, alguns bem perto de nós.

No entanto, ainda não ouvi uma palavra sobre qual deve ser o papel de Portugal no contexto geopolítico e económico em que vivemos. O que ambicionamos ser dentro de 10 ou 15 anos? Que posicionamento distinto e relevante deve o nosso país assumir neste mundo volátil, incerto, complexo e ambíguo? Que estratégia devemos ter em relação a África (e não apenas no que respeita aos PALOP), à América Latina (para além do Brasil) e à Ásia (e não apenas no que se refere a Timor e Macau)?

Sei que há leitores que neste momento estarão a pensar que estou a cometer a heresia de “empresializar” (desculpem-me os puristas da língua pátria pelo neologismo!) o país, procurando abusivamente aplicar-lhe modelos de gestão típicos dos negócios.

Também sei que outros dirão que aquelas perguntas não passam de uma visão requentada da velha política salazarista que atribuía a Portugal um papel messiânico em defesa da cristandade e dos valores ocidentais, sejam eles quais forem.

Finalmente, sei que outros ainda argumentarão que aquelas questões não captam votos. O importante, dirão os especialistas em marketing político, é focar as mensagens em assuntos que tocam na pele dos eleitores no dia-a-dia.

Mas também sei que se Portugal não assumir um posicionamento distinto e relevante no mundo global, não deixaremos de ser uns pobres dentro do clube dos ricos. Um país que não tenha uma visão e um projeto de longo prazo no contexto dos países com quem interage, nunca poderá ambicionar a mais. E depois não nos queixemos de que pagamos muitos impostos, que os serviços públicos são maus e que as reformas são baixas.

 

Carlos Brito, professor da Faculdade de Economia – Universidade do Porto

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