Re-industrialização da Europa: ilusões e realidades

A pandemia veio chamar à atenção de algumas supostas debilidades nas cadeias de valor internacionais que, em tempos de crise, poderiam criar dificuldades de abastecimento de bens críticos. Com vista a resolver este hipotético problema algumas vozes propõem a re-industrialização da Europa, que seria também uma forma de combater o predomínio industrial chinês.

Alguns países centrais europeus aderem à ideia e, como seria de esperar, os políticos portugueses aplaudem acriticamente e apoiam essas políticas. Alicerçados numa economia de baixos salários acreditam ingenuamente que Portugal seria um beneficiado dessa política atraindo investimento estrangeiro para aqui construir esses novos complexos industriais.

O fecho da St Gobain é o primeiro banho de água fria nessas ilusões que a retração do investimento estrangeiro já pronunciava.

A re-industrialização estratégica só faz sentido se for feita no próprio território de quem se quer proteger de falhas de abastecimento. Que diferença faz se a produção é feita na China ou em Portugal quando queremos garantir que ficamos protegidos de falhas de abastecimento? Nenhuma. Portugal apresenta até um risco político maior do que a China, devido à pobreza da sua população, à corrupção, à enorme dívida externa, e à dificuldade do Estado em implementar as políticas que anuncia.

O que faz sentido, na estratégia de re-industrialização, é que nos produtos críticos idealmente toda e tendencialmente a maior parte da produção seja feita no próprio país. Assim o estão a planear os Estados Unidos e, em menor escala, os países do centro europeu, nomeadamente a França e a Alemanha. Eliminar dependências externas, eis o cerne da questão.

A política de re-industrialização é, pois, inimiga do investimento externo em países que antes beneficiaram da globalização. Países como Portugal.

A St. Gobain fecha em Portugal não porque desista de fabricar vidro para a indústria automóvel, que é o seu principal negócio, mas porque decidiu fazê-lo noutras paragens. E Portugal que ao vender a Covina à St. Gobain pensava modernizar uma indústria com tradição em Portugal vê-se agora afastado sem cerimónia desse setor.

Se outras multinacionais francesas e alemãs se retirarem ou diminuírem o interesse por Portugal a nossa capacidade industrial fica reduzida às indústrias tradicionais, pouco produtivas e com limitado futuro. Eis o resultado da aposta no capital estrangeiro. Uma dependência lamentável.

A re-industrialização da Europa, leia-se dos países centrais europeus, é uma política perigosa para Portugal que deve ser rejeitada. Apesar de tudo a experiência da pandemia mostrou que as cadeias de abastecimento da Europa não foram cortadas e que o abastecimento de produtos críticos não foi ameaçado. Mais problemático parece ser o abastecimento intraeuropeu que tem causado graves problemas de abastecimento a várias indústrias no Reino Unido.

A re-industrialização de Portugal, para ter bases sólidas e sustentáveis, só pode ser feita pelos portugueses e por empresas, públicas ou privadas, portuguesas e não através desta nova política europeia que para nós terá um efeito contra produtivo. O renascimento industrial português é absolutamente vital para o nosso país.

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