Re-industrialização da Europa: um perigo para Portugal

Nas últimas décadas o mundo assistiu a uma desindustrialização dos países desenvolvidos e a uma transferência da produção para os países com baixos salários e sem ou com níveis baixos de assistência social. Portugal foi, obviamente, um dos países escolhidos para acolher fábricas de multinacionais de países desenvolvidos. Assim temos em Portugal investimento estrangeiro materializado na presença de muitas multinacionais com instalações industriais (Volkswagen, Renault, Boch, Siemens, Continental Mabor, Nestlé, etc.) e várias empresas agroindustriais.

Podemos dizer que Portugal foi um dos beneficiados, se a manutenção de um modelo de baixos salários e de deficiente cobertura da proteção social puder ser considerado beneficio, da desindustrialização dos países desenvolvidos do centro da Europa. Trata-se de um sistema em que quase tudo o necessário à produção é importado e esta é quase toda exportada, sendo o valor acrescentado português apenas o do trabalho da nossa mão-de-obra barata. Um modelo que nos transforma num dos países mais pobres da Europa.

A pandemia veio acelerar um processo que Trump já desencadeara nos Estados Unidos, o da re-industrialização com o incentivo ao regresso ao país da produção anteriormente deslocalizada. Os riscos geopolíticos parecem ser maiores que o custo da re-industrialização.

Em dados publicados pelo Eurostat ficamos a saber que a produção industrial portuguesa pouco tem aumentado nos últimos anos. Considerando 2015 como base (100) a produção industrial portuguesa atingiu em Agosto de 2021 os 112. Em contrapartida países centrais como a Irlanda (146), Bélgica (135), Noruega (129), Holanda (122), Dinamarca (128), Finlândia (117), Espanha (116) e Alemanha (114) viram a sua produção industrial crescer mais que Portugal.

Esta semana o Eurostat publicou os dados detalhados da produção industrial para o mês de Julho (ver aqui). Os dados comparam a produção de 2021 com a de igual mês do ano passado, altura em que estávamos em plena pandemia de 2020. A grande maioria dos países está a recuperar a bom ritmo das paragens do ano passado. As maiores subidas foram na Bélgica (+29,9%), na Irlanda (+22%) e na Lituânia (+15,4%).

Apenas três países tiveram quebras da produção industrial em 2021, a República Checa (-1,4%), Malta (-4,2%) e Portugal. Portugal foi o que teve a maior queda (-7,2%) em relação ao ano passado. Um desastre.

O processo de re-industrialização europeu em curso prevê o reforço da produção nos países centrais deixando os restantes países sem ou com menor investimento estrangeiro.

Face à re-industrialização dos países centrais Portugal precisa de uma nova estratégia de investimento. Não foi ainda capaz de a desenhar. Nos últimos anos temos estado paralisados à espera. Não se sabe de quê.

Com elites económicas incapazes de competir com as suas congéneres, com empresas sem dimensão internacional, Portugal precisa de uma nova estratégia, baseada nas suas próprias forças e no seu próprio capital, para se industrializar e modernizar. Sem isso continuaremos a definhar e a ficar para trás. Infelizmente nada disso está previsto no Plano de Recuperação e Resiliência.

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