Opinião

Recomendação para o pós pandemia: não lavar as mãos…

Jayme Kopke

... dos problemas e objetivos de um mundo melhor.

O trauma da covid-19 será a aurora de um novo tempo? A humanidade sairá desta travessia com novos valores, uma nova ética, um novo respeito pelo ambiente, uma nova consciência das suas prioridades?

Desde que a pandemia se instalou pareceu-me divertida a crença, assídua nas conversas online e nas que ocasionalmente podíamos ter com humanos, de que seria assim. Quando nem é preciso esperar o fim do túnel para constatar o quanto essa crença é ingénua.

Vimos, sim, como aliás é frequente nas crises, exemplos inspiradores. Não só os da linha da frente – profissionais de saúde à cabeça. Sociedades inteiras acataram o que lhes pediram os seus líderes, sacrificando liberdades e talvez a própria sobrevivência económica, em prol do que lhes foi dito – com ou sem razão, logo veremos – ser o interesse comum.

Empresas e cidadãos organizaram-se para ajudar. Doaram tempo e dinheiro, reconverteram fábricas, continuaram a pagar o colaborador, o ginásio, o professor de dança, mesmo sem usufruir dos seus serviços – só para que pudessem sobreviver.

Mas a pandemia não erradicou o mal do mundo. Quem não conhece algum caso de empresa com colaboradores em lay-off, mas que continuam a trabalhar? Num contexto mais amplo, não creio que tenhamos assistido, desde a Guerra Fria, a uma convivência internacional tão carregada de acusações mútuas, golpes baixos, manipulação descarada dos factos. Com os cidadãos entretidos a contar mortos, aprovam-se à socapa leis anti-ambiente, revogam-se direitos e liberdades. Isto nas democracias. As ditaduras simplesmente continuam a fazer, com novos pretextos e menos peias, o que já faziam antes.

Mas o caso mais interessante seremos nós próprios. Todos saudámos o ar mais limpo nas cidades, os golfinhos nos canais de Veneza (era mentira) ou na marina de Cascais. Estão a ver como é possível salvar o planeta? Basta querermos!

Ah, sim? Pois agora vamos ver se queremos. Quando a retoma vier, quem terá aproveitado a pausa para rever o seu consumo? Quem deixará o carro em casa – ou se livrará dele? Quem recusará as viagens low-cost, tão convenientes, e exigirá do seu governo que apoie antes a ferrovia? Quem terá meditado, de facto, no impacto de um sistema económico que só se considera saudável quando cresce sem limites, e por isso está disposto a sacrificar qualquer coisa, seja o ambiente, seja a justiça ou o bem-estar social, por esse crescimento?

Muitos de nós convivemos com uma espécie de consciência dividida. Por um lado afligem-nos as iniquidades do mundo, e sabemos que são consequência de modelos de sociedade insustentáveis. Só que, na confortável convicção de que não somos ninguém para mudar esses modelos, alimentamo-los – com o nosso trabalho, as nossas opções de consumo, o nosso dar de ombros.

Seria tão simples se um vírus nos pudesse tirar deste impasse. Uns meses de quarentena e já está: saímos da toca e magicamente o mundo mudou, sem termos de mover uma palha. Seria tão bom.

Não sendo assim que as coisas acontecem, das duas, uma. À medida que as restrições forem levantadas, podemos suspirar de alívio por retomar a velha normalidade. E continuar suspirando por um mundo melhor – que não virá.

Ou então podemos, passada a emergência, não desperdiçar o que ela nos fez sonhar. Um vírus não muda os humanos – ainda que lhes possa complicar bastante a vida. Já os humanos, que apesar de tudo têm mais inteligência do que um vírus, podem mudar a si próprios. Desde que decidam – e tem de ser um a um – não lavar mais daí as mãos.

Jayme Kopke é diretor-geral e criativo da Hamlet

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