Opinião: António Saraiva

Reconciliar a economia com o planeta

Conferência das Nações Unidas sobre Aklterações Climáticas (COP25), em Madrid, Espanha. REUTERS/Sergio Perez
Conferência das Nações Unidas sobre Aklterações Climáticas (COP25), em Madrid, Espanha. REUTERS/Sergio Perez

A União Europeia lançou nesta semana o Green Deal – o Pacto Ecológico Europeu.

Esta primeira grande iniciativa da nova Comissão Europeia consiste numa estratégia transversal a todos os setores da economia, nomeadamente a energia (em que o objetivo é a transição para fontes de energia renováveis), a indústria (com uma forte aposta na economia circular), a construção (com grande enfoque na reabilitação), a mobilidade (promovendo meios de transporte mais sustentáveis), a agricultura e pescas (para uma cadeia alimentar também mais sustentável).

Este pacto foi apresentado pela presidente da Comissão tendo como objetivo a reconciliação da economia com o planeta, fazendo-a funcionar para as pessoas. É, assim, uma verdadeira estratégia de desenvolvimento económico para as próximas décadas, contrariando a ideia de antagonismo entre crescimento e ambiente.

O caminho percorrido nas últimas décadas mostra que, na Europa, entre 1990 e 2018, as emissões de gases com efeito de estufa já diminuíram 23%, enquanto a economia cresceu 61%. A ameaça das alterações climáticas exige agora uma maior ambição nos objetivos ambientais, mas exige igualmente um forte pilar económico, para garantir que a transição não leve à desindustrialização e à destruição de emprego. De facto, não iremos longe na preservação do planeta se tal objetivo for encarado como lesivo de um maior bem-estar económico das populações.

É preciso contrariar tanto o negacionismo irresponsável como o radicalismo inconsequente. Ambos são igualmente perigosos.

Tenho defendido que as políticas públicas deverão estar focadas nas pessoas, na competitividade e na sustentabilidade, não de forma isolada, mas conciliando-se e reforçando-se mutuamente, como os ângulos de um triângulo que é preciso articular. Consequentemente, as políticas com vista à sustentabilidade ambiental terão de ter em conta o impacto na competitividade empresarial, sendo fundamental mobilizar empresas e cidadãos para criar soluções inovadoras e alterar comportamentos.
Ao assentar o Pacto Ecológico Europeu nestes três eixos – pessoas, economia e planeta -, a Comissão Europeia coincide com esta visão.

Na implementação desta estratégia, não tenho dúvida de que haverá áreas em que surgirão divergências quanto às medidas que será necessário pôr no terreno. O essencial, para o seu sucesso, é envolver todos os agentes em torno dos mesmos objetivos, conscientes das suas responsabilidades. E, como a presidente da Comissão Europeia afirmou, assegurar que ninguém será deixado para trás.

As empresas são cruciais para esse sucesso. Apenas empresas competitivas e geradoras de riqueza estarão em condições de contribuir com soluções tecnológicas e de sustentar o nível de emprego, o que será fundamental para que esta agenda profundamente transformadora atinja os seus objetivos, do ponto de vista económico, social e ambiental.

Espero, portanto, que a UE seja fiel à visão que acaba de transmitir e consiga fazer deste Green Deal uma ideia verdadeiramente mobilizadora. Se o fizer, estará em condições de se afirmar, no mundo, como exemplo e como líder na resposta exigente a um desafio que não é só europeu, mas global.

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