Coronavírus

Reinventar a economia

Pedro Reis,  Head da Banca Institucional do Millennium BCP e ex-presidente da Aicep.
(Reinado Rodrigues/Global imagens)
Pedro Reis, Head da Banca Institucional do Millennium BCP e ex-presidente da Aicep. (Reinado Rodrigues/Global imagens)

Pedro Reis escreve sobre o que é preciso fazer para enfrentar a crise e levantar a economia no pós-pandemia.

Aos poucos, no meio desta crise multifacetada que se instalou sem pedir licença, começam a ganhar forma alguns contornos de um novo paradigma que provavelmente impregnará as economias mundiais no futuro.

Dos vários fatores e tendências que me parece que se perfilam como eixos nucleares de futuros modelos económicos e empresariais (que fatalmente ter-se-ão que reinventar num sentido ou noutro), há quatro aspetos que poderão vir a revelar se marcantes: são eles a autonomização, a reconversão, a aceleração e a proteção.

Quanto ao primeiro fator, o da autonomização, penso que o novo normal trará consigo o imperativo de cada entidade (seja ela um bloco, região, país, economia ou mesmo empresa) apostar mais determinadamente na sua autonomização (no sentido de autossuficiência estratégica) para não mais ser apanhada desprevenida em situações que, lá por serem pouco prováveis, não deixam de ser possíveis e de trazerem uma elevada carga disruptiva no seu âmago e alcance. Por autonomização não me refiro, antes pelo contrário, a isolacionismo até porque me parece que a economia de partilha (e a própria globalização) estão aí para ficar; mas, dito isto, parece claro que regiões ou países, empresas ou organizações investirão com redobrado cuidado e revisitada intensidade de forma a assegurar e acautelar que têm suficiente espessura em setores chave como o alimentar, a saúde, a energia, o sistema financeiro, a investigação cientifica ou a logística, entre outros.

Quanto ao segundo fator, o da reconversão, acredito que o novo normal provocará e acelerará a reinvenção de empresas, de pessoas e de valores. De empresas no sentido em que muitas delas passarão a dedicar se a outras atividades, com base em outros modelos de negócio, para atenderem a outras necessidades e de modo a servirem outros segmentos. A sua reconversão representará assim a chave para um novo futuro que implicará transformações culturais internas de calibre equivalente a uma refundação da sua própria realidade e a uma reinvenção dos seus cromossomas corporativos. Estou em crer que também as pessoas, enquanto profissionais, repensarão o seu projeto de vida e o seu percurso profissional ajustando se a novas solicitações dos mercados ou sugestões de consciência, apostando na sua requalificação ou investindo na sua formação e mesmo revendo as suas prioridades e modelos existenciais. Por fim, ou por base, acredito que estamos na antecâmara de mudanças profundas de valores enquanto sociedades e economias em termos de um maior sentido de pertença e de comunidade que implicará todo um novo envolvimento com o coletivo e a par de uma mais profunda responsabilização do indivíduo.

Quanto ao terceiro fator, o da aceleração, é possível já constatar que o novo normal vai fazer as economias darem um salto quântico em tudo o que implica a sua relação com a tecnologia: esta impregnará as mais variadas esferas da mecânica de mercado, desde o nosso modelo de consumo ao nosso modelo de trabalho, desde o nosso modelo de organização ao nosso modelo de vida, desde o nosso modelo de participação ao nosso modelo de análise. A tecnologia será posta completamente ao serviço do novo mundo que se vai abrir, impondo se como catalisador de mudança, como parâmetro de inovação e como medida de ambição.

Por fim, quanto ao quarto fator, o da proteção, antecipo que o novo normal nos vai tornar a todos mais exigentes no que toca a segurança no seu sentido mais lato e abrangente: o mundo vai exigir maior segurança em termos não só de sistemas de saúde mas de sistemas de prevenção, e de resposta em geral, a crises da mais variada natureza e origem (desde fatores de força maior até colapsos de ordem financeira e económica); numa palavra, o apetite de risco da humanidade vai reduzir se drástica e visivelmente, obrigando nos a todos a prevenir para não ter de reagir, a atuar para não ter de recuar, a antecipar para não ter de pagar, a mudar para não ter de penar.

Numa palavra, este novo normal pode vir a funcionar como um gigantesco catalisador de mudança que irá marcar o planeta por muitos anos que estão por vir: já que não fizemos o suficiente para evitar a sua causa, ao menos que façamos o necessário para podermos tirar partido de algumas das suas consequências.

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