Opinião

Reinventemo-nos uns nos outros!

Mafalda Ribeiro com Marcelo Rebelo de Sousa

Falar “para” os portugueses, a partir de sua casa, no primeiro dia de 2018, em directo e sem teleponto, numa espécie de olhos nos olhos, não teve para mim nada de inédito. Foi antes uma confirmação daquilo que Marcelo Rebelo de Sousa tem vindo a fazer desde o inicio do seu mandato, enquanto Presidente da República deste país: falar “com” as portuguesas e os portugueses!

Nunca um chefe de Estado soube tão bem aplicar a empatia, personificando-a nos afectos. A empatia não é sentir pelo outro, é sentir com o outro, é quando se tem a capacidade de ler o guião de outra vida, é estar disponível para representar num palco que não o nosso, é entender lá do fundo sem apenas dizer “eu sei como se está a sentir”, é quando não se diminui a dor de alguém, é descer até ao fundo do túnel e ficar lá a fazer companhia a quem precisa, não é ser um super-herói com super poderes, é somente ser amigo. A empatia é abraçar a alma do outro. Marcelo é Professor de tudo isto na sua agenda oficial (e em tudo o que nunca vamos saber que esteve ou fez) desde que está na Presidência.

As minhas expectativas acerca da sua mensagem de Ano Novo eram portanto que ele falasse para mim, comigo, acerca de coisas que me iriam também levar a fazer um balanço do ano que findou, como forma de me içar com garra e determinação para os 364 dias que tenho à minha frente. Mas Marcelo fez isto e mais… Ouvi-lo foi como se ele estivesse a falar de mim, da minha história, e do que em 2011 me aconteceu. Aquelas palavras, noutro contexto, poderiam muito bem ter sido as minhas.

O que é que a minha história pessoal tem que ver com a mensagem de Ano Novo do Presidente da República? E porque é que a história de um país, da Europa, e do mundo, neste ano me fizeram recuar a 2011? Uma única frase, destacada visualmente pelas televisões em rodapé: “se o ano tivesse terminado a 16 de Junho, ou tivesse sido por mais seis meses, exactamente como até então, poderíamos falar de uma experiência singular constituída quase apenas por vitorias.”

Até ao dia 17 de Junho, às 16h30, de 2011 eu acreditei que estava a viver O ano da minha vida. E foi, até então, o melhor. Mas como afirmou Marcelo: “Assim não foi, porém. Um outro ano, bem diverso, se somou ao primeiro.” No meu caso, a partir de um acontecimento, tudo o que era deixou de ser e o melhor passou a pior. Como um fiel de uma balança que equilibra o ano em dois, exactamente a meio dele, e que me fez concordar: “estranho e contraditório ano esse que exigiu tudo de todos nós!”.

Quando na primeira metade de 2011 vi assinada a escritura da minha casa para ir viver sozinha, depois de um processo “suado” de mais de dois anos apesar dos meus 95% de incapacidade estampados no meu atestado, isso é uma “reconfortante alegria”. Quando também nessa altura vi concretizada a confirmação da viagem que sempre quis fazer a Israel, com o apoio do turismo daquele país, por se preocupar verdadeiramente com as acessibilidades para as pessoas com mobilidade reduzida, como eu, isso é também uma “reconfortante alegria”. Mas a “profunda tristeza” apareceu sem aviso nem ensaio, quando à porta do meu local de trabalho a minha mãe (que tinha como profissão viver única e exclusivamente para que a minha deficiência nunca me travasse os sonhos) “incendiou-me” para sempre um futuro com ela e deixou-me orfã da sua alegria aos 27 anos. Num acidente de viação, quando me ia buscar e foi… só que naquela tarde de 17 de Junho de 2011 foi-se embora para o céu e não me levou.

O que sobrava a partir daquele dia para mim? “A resistência, o afecto, a iniciativa, a fraternidade militante que levou ainda mais longe a nossa tradicional solidariedade”, dizia o Presidente na televisão. E eu tive isso de quem me obrigou a tirar a “resiliência” do dicionário e vivê-la. Se o passado já era pedra, os dias dali em diante eram de barro e eu só tinha duas hipóteses: confiar ou confiar; “exigindo a coragem de reinventar(mos) o futuro. Reinvenção essa que é mais do que mera reconstrução material e espiritual”. Se o segredo para nos levantarmos das cinzas é o Amor, se o “amai-vos uns aos outros” não é apelo, é mandamento, então eu assumo que não só me reinventei – naquela segunda metade do ano – com os outros mas nos outros! Hoje posso assinar por baixo a mensagem de Ano Novo do Presidente da República e dizer-vos a todos que é possível: “converter as tragédias que vivemos em razão mobilizadora de mudança para que não subsistam como recordação de irrecuperável fracasso”.

Reinventei-me pela descoberta de uma mulher esquecida, porque distante estando aninhada na redoma de quem me sobre-protegia, com medo que eu me confrontasse na íntegra com todas as minhas limitações físicas. Reinventei-me na confiança da minha segurança que não está em coisas nem somente em pessoas, mas na minha fé e no propósito da minha existência. Reinventei-me na recusa da resignação e na vontade de vencer todos os obstáculos diários num mundo que continua impreparado para que pessoas como eu se movimentem nele. E chegada a 2018 continuo a reinventar-me “com verdade, humildade, imaginação e consistência.”

Marcelo Rebelo de Sousa termina com: “Temos de superar o que de menor nos divide para afirmar o que de maior nos une!” O que de maior me aproxima às suas palavras, me fez identificar com elas e com o “estranho e contraditório ano” de tantas pessoas que nunca vou chegar sequer a conhecer, é a nossa humanidade falível e o facto de ninguém estar imune às perdas. O que de menor nos pode dividir é o querer, extrapolado ao crer, de nos reinventarmos todos uns nos outros!

Mafalda Ribeiro, Oradora Motivacional (Sorrir Sobre Rodas)

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