Opinião

Relançar a economia (IV)

Pedro Reis,  Head da Banca Institucional do Millennium BCP e ex-presidente da Aicep.
(Reinado Rodrigues/Global imagens)
Pedro Reis, Head da Banca Institucional do Millennium BCP e ex-presidente da Aicep. (Reinado Rodrigues/Global imagens)

Pedro Reis escreve sobre o que é preciso fazer para relançar a economia no pós-pandemia.

No meu primeiro artigo desta série (Proteger a economia) procurei dissecar alguns contornos da crise que então se começava a desenhar e que poderiam vir a ter um impacto mais pronunciado na economia mundial; já no segundo (Reinventar a economia) procurei descortinar algumas avenidas possíveis, ou mesmo prováveis, de reconversão da economia global para, no terceiro texto (Blindar a economia), ensaiar uma interpretação de uma das principais tendências que podem vir a marcar os próximos tempos em termos geoestratégicos.

É chegada a altura de visitar o mesmo tema geral mas agora por um prisma mais micro de como promover o relançamento da economia: até porque essa reativação será determinante para mitigar os estragos da presente crise, que está agora apenas a tirar as garras de fora, evitando com isso e dentro do possível rasgar muito do tecido empresarial que envolve a delicada rede social: tratar das empresas é proteger as pessoas da mesma forma que cuidar da economia é salvaguardar a sociedade. Não há aqui interesses individuais, há apenas agendas coletivas.

Atentando no que a generalidade das economias mais afetadas pela crise da covid e mais proativas na resposta à mesma têm anunciado e implementado, podemos identificar essencialmente quatro tipos de eixos de abordagem na estruturação da resposta, que se quer articulada, aos desafios crescentes com que estamos a ser confrontados (eixos esses que são complementares e não mutuamente exclusivos, até porque todos serão poucos para contrariarmos as forças em campo que se conjugam para fazer abrandar a atividade económica de forma vigorosa): o eixo do financiamento, o eixo da capitalização, o eixo da promoção e o eixo do impacto.

A nível do financiamento, as cinco principais vertentes de apoios estatais (que se tendem a prolongar, se não mesmo a reforçar, no tempo enquanto o futuro se mantiver incerto) de que os vários governos têm lançado mão são as que se prendem com as linhas de financiamento com apoio público (nomeadamente as operacionalizadas através dos vários sistemas de garantias mútuas) que são essenciais para se assegurar tesouraria de emergência e fundo de maneio de reserva a milhares de empresas, as que se ligam com linhas e garantias europeias com apoio do BEI/FEI que podem vir a funcionar como uma “segunda vaga” de suporte às empresas à medida que as primeiras forem atingindo o limite da sua capacidade, as que recorrem ao reforço dos seguros de crédito para assegurarem o financiamento de todo o ciclo de operação e de exportação (desde a colocação da encomenda aos fornecedores, muitas vezes estrangeiros, ao recebimento do pagamento por parte do cliente final, passando naturalmente pelo financiamento do próprio ciclo de produção e de transformação interno da empresa), e ainda as medidas de congelamento ou protelamento de custos desenhadas em vários países como é o caso dos regimes de lay-off e das moratórias da mais diversa ordem e natureza e, por fim, as medidas de imunização de custos e despesas no que toca à gestão da relação dos contribuintes com o Estado como sejam todas aquelas iniciativas que se prendem com a consolidação da conta corrente dos mesmos com o Estado ou a ativação de instrumentos de utilização de créditos fiscais futuros através do alargamento do perímetro da sua aplicabilidade.

A nível da capitalização das empresas, chave absolutamente nuclear da solução para esta crise, começa a ficar muito claro para todos que serão necessários instrumentos muito robustos e estruturantes para se reforçar a solvabilidade das empresas a médio e a longo prazo, que tal implicará o desenvolvimento urgente de instrumentos de reforço do seu capital quer pela constituição de fundos de fundos com apoio público, quer pela gestão articulada entre os Estados e as sociedades de capital de risco de fundos híbridos, quer ainda pela dinamização de uma miríade de instrumentos que na prática funcionem como “conversores” de divida em capital (de forma mais ou menos subordinada ou mais ou menos reversível consoante o caso): todos eles ajudarão certamente a promover soluções arrojadas, dinâmicas e musculadas que acelerem o ganho de dimensão das empresas, a consolidação setorial das mesmas, a aceleração do processo de internacionalização que está profundamente correlacionado com os ganhos de escala e até as necessárias (e muitas vezes adiadas) sucessões geracionais com a respetiva profissionalização da gestão que estes processos geralmente acarretam.

Se a nível mundial numa primeira fase se acorreu, e bem, a um problema urgente de tesouraria das empresas (“never run out of cash”), numa segunda fase ter-se-á de resolver um desafio incontornável de insuficiência de capital: do urgente há que passar para o estrutural. Da emergência de curto prazo há que desembocar na solução de longo prazo. Da resposta ao presente terá agora de nascer a incubação do futuro.

Um terceiro eixo que se afirma na estratégia de relançamento das várias economias é o que cuida da promoção desses mesmos mercados: começa assim a tratar se da conceção e da divulgação de políticas de atração de investimento focadas especificamente na substituição de importações que levarão, por sua vez, a processos de reconversão e de reindustrialização de muitas economias ocidentais, nomeadamente europeias, bem como a políticas de promoção do consumo do que é “nacional”; nunca foi tão atual o velho mottothink global, act local”.

Por fim, ao nível da reconversão estrutural da economia mundial (e dos valores que a regem), vai-se observando uma atenção redobrada e um peso crescente de tudo o que se prende com o “investimento com impacto” que procura assegurar a aplicação prática dos princípios ESG das Nações Unidas para se procurar impregnar a prática das organizações e a matriz de decisão das instituições com um mais agudo sentido ético e uma mais presente sensibilidade à agenda da sustentabilidade que promova um quadro de princípios e de práticas alinhadas com uma nova postura e uma nova consciência mundial (“profit with purpose”).

Certamente ninguém escolheu ser confrontado com esta crise, embora pouco tenha sido feito (por poucos) para genuinamente a evitar. Mas, já que ela aí está, seria bom que a debelássemos com determinação, com inteligência e com coragem aproveitando para semear uma sociedade mais justa regada por uma economia mais equilibrada.

Seria bom que tivéssemos a presença de espírito para repensar tudo, dispensar muito e aproveitar somente o que interessa. Da maneira como sairmos desta crise, mais do que da forma como nela entrámos, dependerão os próximos anos, para não dizer as próximas gerações. Está nas nossas mãos muito do que nos espera: para que um novo começo não seja um mero recomeço.

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Outros conteúdos GMG
Hoje
Fotografia: Gerardo Santos/Global Imagens

Economia portuguesa afunda 16,3% entre abril e junho

Visitantes na Festa do Avante.

Avante!: PCP reduz lotação a um terço, só vão entrar até 33 mil pessoas por dia

covid 19 portugal casos coronavirus DGS

Mais 235 infetados e duas mortes por covid-19 em Portugal. Números baixam

Relançar a economia (IV)