Opinião

Resiliência em tempos de crise

Tomás Penaguião, Bynd Venture Capital

Se alguma vez falou um com agente imobiliário ou com o proprietário de um restaurante sobre investir em alguma destas áreas, já deve ter ouvido a célebre frase “localização, localização, localização”.

No mundo do capital de risco, o nosso mantra é outro: “equipa, equipa, equipa”. Naturalmente, esta é uma visão redutora do que procuramos nos nossos investimentos, mas sem dúvida que a esmagadora maioria dos investidores de capital de risco colocam a equipa como um dos três principais fatores determinantes no sucesso de uma startup.

Ser empreendedor não é para todos. Enquanto que um investidor tem a possibilidade de construir um portfolio diversificado e, portanto, múltiplas oportunidades de êxito, um empreendedor depende exclusivamente do sucesso do seu próprio projeto.

Construir um negócio do zero implica passar por muitos altos e baixos. Um dia os fundadores perspetivam a sua empresa como a próxima Google, mas no dia seguinte questionam-se por que razão abandonaram o seu emprego estável em busca do sonho de construir algo de raiz.

Para navegar por estes mares, os empreendedores têm de reunir características muito especiais, como uma motivação intrínseca, uma resiliência ímpar e uma capacidade de adaptação a novos desafios quase imediata – atributos que são igualmente procurados pelos investidores de capital de risco.

A importância destes atributos é elevada ao seu expoente máximo em tempos de crise como a que vivemos atualmente. Nesta, foram colocados em causa os modelos de negócio já estabelecidos, algumas cadeias de abastecimento foram suspensas e, acima de tudo, os hábitos de consumos dos públicos-alvo mudaram de um dia para o outro para fazer face às restrições levantadas.

São desafios sem precedentes. Contudo, de uma perspetiva estritamente de negócio, representa também um momento incomum para start-ups com equipas ágeis e flexíveis explorarem oportunidades únicas para se sobreporem a empresas já estabelecidas que são tipicamente mais lentas a adaptar-se a novas condições de mercado.

Internacionalmente, temos o exemplo de sucesso de mudança de estratégia por parte de start-ups como a Californiana Bloom Energy focada no fabrico de células combustíveis para veículos elétricos que reestruturou totalmente a sua linha de produção para auxiliar na renovação de ventiladores antigos para tratamento de pacientes com covid-19.

Já no nosso portfolio, contamos com caso da Colvin, um marketplace de venda de flores, que viu o seu mercado crescer subitamente de 10% para 100% de compradores de flores online devido ao fecho imposto a retalhistas locais.

Com base nesta oportunidade, a empresa reforçou o seu foco de negócio no canal B2C e multiplicou as vendas entre 12 e 14 vezes face ao ano anterior.

Para muitas startups, a situação em que vivemos atualmente será um teste de fogo à resiliência e capacidade de adaptação das suas equipas. No entanto, também pode resultar em alguns efeitos positivos e as empresas que melhor se adaptarem irão sair desta pandemia com as suas posições reforçadas.

AirBnB, Netflix, Apple ou Warby Parker são alguns nomes de empresas que nasceram numa fase de recessão económica e que hoje estão entre os líderes das suas indústrias. Em tempos de crise, surgem oportunidades inexploradas e é importante que os empreendedores não cedam à pressão e optem pelo caminho da disrupção.

Tomás Penaguião é associate da Bynd Venture Capital

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