Opinião: Ricardo Reis

Resolver o “problema” do turismo

Foto: Gonçalo Villaverde / Global Imagens
Foto: Gonçalo Villaverde / Global Imagens

A opinião de Ricardo Reis, Professor de Economia na London School of Economics

De acordo com um relatório do Instituto do Planeamento e Desenvolvimento do Turismo, Lisboa foi visitada por 9 turistas por cada residente, enquanto que o rácio foi de 8 no Porto. Em comparação, em Barcelona que tem adotado medidas anti-turistas, são 5 turistas por residente. Em Londres, são só 4.

Há quem olhe para estes números e veja a confirmação do descalabro que hoje expulsa os residentes dos centros da cidade. Outros notam que o turismo salvou o emprego de milhares de pessoas durante a crise e permitiu tornar rentável a restauração de edifícios que estava adiada há décadas. Uns querem proibir, e outros não querem fazer nada. Mas há uma solução intermédia que agradaria a todos, mas que é menos óbvia: incentivar as exportações.

Portugal tem uma grande dívida externa, pelo que na próxima década (ou mais) vamos ter de certeza que exportar tanto ou mais do que importamos. O turismo é, neste momento, uma das nossas grandes indústrias exportadoras. Proibi-lo ou desencorajá-lo irá implicar menos exportações. Isto tem de vir com menos importações, e mais pobreza para todo o país.

Alternativamente, imagine que o sucesso dos concelhos de Palmela e Famalicão a desenvolver indústrias exportadoras era ampliado e se estendia a outros concelhos do país. Muitas destas indústrias exportadoras geram mais valor acrescentado do que o turismo, pelo que iriam pagar salários mais elevados, atraindo muitos dos jovens licenciados que hoje servem à mesa em Lisboa. Para conseguir arranjar pessoal, os hotéis e restaurantes do Porto teriam de pagar mais. Por sua vez, alguns trabalhadores teriam mais rendimentos para gastar na habitação e restauração, aumentando o que estão dispostos a pagar por estes serviços. Portugal ficava mais caro, e o número de turistas diminuía, sem serem precisas quaisquer proibições.

Para este ciclo virtuoso não é preciso que todos os portugueses trabalhem em indústrias de ponta, ou que todos tenham muitas qualificações. Basta que uma minoria significativa seja assim para levantar a maré que faz subir os barcos de todos. Para ver isto, olhe-se para a Suíça. A Suíça tem várias indústrias exportadoras de ponta que puxam os salários e riqueza para cima, mesmo não empregando a maioria das pessoas. Por isso, os trabalhadores do turismo (muitos deles portugueses) ganham bem, e visitar a Suíça é caro. Por isso, apesar de a beleza dos Alpes e dos seus lagos ser tão atraente como as nossas praias e clima, a Suíça não tem um problema de excesso de turistas.

Em vez de proibir ou encolher os ombros, quem se preocupa com os efeitos do turismo, tem como alternativa intervir nos debates económicos. Apoie quem aposta no crescimento económico via exportações e quem quer atrair investimento estrangeiro, porque isto vai resolver o problema do turismo. Enveredar antes pelo estímulo da procura interna, pela proteção das indústrias que servem o mercado nacional, ou pelo crescimento do setor público, só vai aumentar o número de turistas.

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