Respeitinho em tempos de pandemia

Do Natal sem limites à prisão domiciliária: como obedecer ao que não faz sentido?

Na educação dos nossos filhos existem duas premissas que os pais devem ter presentes como certas ou estão tramados Primeira: eles só nos respeitam e obedecem se entenderem as regras e as ordens; segunda: podemos fazer milhares de discursos elaborados e convincentes mas, no final do dia, aquilo que conta é o exemplo que damos - como vivemos é infinitamente mais importante do que aquilo que dizemos. Se ignorarmos estas duas premissas, só nos resta a força para manter a disciplina e para conseguirmos conviver uns com os outros. O não porque não, os castigos, o medo da palmada, são o último reduto da nossa autoridade como pais. No entanto, optar pela autoridade do medo à autoridade da coerência, é como tentar conter uma onda com as mãos.

É também assim que se desenvolve a mentira. O medo leva à mentira e com a mentira vem o distanciamento, o silêncio e a ausência de cumplicidades. Fica o respeito fingido. Aquele do "sim, mãe" robótico que não nos serve para nada porque não sabemos se é verdadeiro ou não. E que não é respeito, é respeitinho. A escolha passa a ser entre o respeitinho ou a revolta, mas como eles não têm dinheiro para comprar leite nem sabem lavar as cuecas, fica o respeitinho.

É assim em casa e é assim com os governos. Se os governos abusam na carga fiscal, a fuga aos impostos agrava-se e a receita desce; se um governo é corrupto, perde o respeito dos eleitores e convidam ao roubo e ao desrespeito pelos dinheiros públicos; se os políticos não cumprem, perdem a confiança dos cidadãos; se proclamam o que não fazem, ganham o desprezo do povo que dificilmente acreditará em qualquer autoridade pública. E se as regras que impõem são estúpidas, incoerentes e não fazem sentido, é como endereçar um convite à desobediência. Se eu disser aos meus filhos que a hora de deitar é às 19 horas, eles percebem que não sou uma pessoa de confiança para estabelecer regras. Sou tontinha, no mínimo. E partem para a desobediência, para a mentira, além de ficarem sem saber a que horas devem, de facto, ir para a cama.

A história desta pandemia e deste governo, está resumida neste último parágrafo. Nos sucessivos confinamentos e desconfinamentos, no milagre português ao último lugar na tabela, na segunda vaga que não existia à quarta vaga que pode chegar, no Natal sem limites à prisão domiciliária, no desastre do processo das vacinas, do alarme catastrófico ao nacional porreirismo que se passou num ápice. A incompetência e o abismo do populismo, são a tónica dominante. Parecem eu quando quero estar sossegada na praia e os encho de gelados sem critério ou quando quero ver um filme sozinha e mando-os para a cama mais cedo. E as regras? Os livros que só se vendem em locais onde se venda outra coisa para além de livros - menos nas livrarias; as bebidas que não se vendem em lado nenhum - apenas águas na Worten; o surf que está proibido e as pranchas apreendidas à bruta aos miúdos, mas as bicicletas sem restrições; as meias, as cuecas e os brinquedos que não se conseguem comprar nos supermercados, mas o vinho sim; a vergonha das mentiras com os colégios privados e as aulas à distancia; a falta de medidas de conciliação entre o apoio aos miúdos e o teletrabalho, etc. etc. etc.

E nós obedecemos porquê? Tenho de perguntar aos meus filhos como se lida com governos assim.

Jurista

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