Revolta contra as tecnológicas. O que mudou com a pandemia

A verdade é que as tecnológicas portaram-se melhor que muitos governos e até autoridades sanitárias na resposta à pandemia

Conhecido como “techlash”, o fenómeno de revolta contra as grandes tecnológicas que dominam o mercado agudizou-se nos últimos anos, em especial devido aos escândalos de segurança, privacidade e manipulação que vieram a lume. A fraca regulação nos Estados Unidos, onde se concentram estas empresas, falhou na protecção dos consumidores – e ainda estamos a avaliar como o Regulamento Geral de Proteção de Dados (RGPD) ajuda os cidadãos europeus a recuperarem controlo sobre a circulação das suas informações.

Mas o techlash é muito mais que isto. É o poder discricionário dos algoritmos, que ninguém sabe bem como funcionam, é a falta de inovação real, comprometida em prol de métricas de desempenho e maximização do efeito viciante das plataformas, é a censura nuns casos e ausência de regulação noutros. A ira de grupos de consumidores e legisladores perante a desresponsabilização das grandes tecnológicas, em especial redes sociais, vinha num crescendo imparável. E de repente, a pandemia de covid-19 confinou toda a gente e foram essas plataformas que nos permitiram continuar a funcionar.

Não só o tempo passado no Facebook, Twitter, TikTok, YouTube e outras plataformas disparou, houve uma correria para serviços de colaboração e videoconferência, à medida que empresas assarapantadas tentavam adaptar-se ao teletrabalho. Se a covid-19 nos tivesse abalroado há vinte anos, o desastre laboral e social teria sido incalculavelmente maior. Em diversos aspectos, as grandes tecnológicas revelaram-se providenciais para muitos de nós aguentarem o rombo da pandemia e do confinamento. Será que podemos continuar a criticar o seu poderio e omnipresença depois disto?

A verdade é que as tecnológicas portaram-se bastante melhor que muitos governos e até autoridades sanitárias na resposta à pandemia. Numa pesquisa que a consultora Brunswick Group divulgou há poucos dias sobre o tema, os dados mostram que a favorabilidade das tecnológicas melhorou para 60% dos inquiridos norte-americanos e 41% dos inquiridos na União Europeia. Surgiu uma boa-vontade relativa a estas empresas porque os consumidores perceberam o quão vital é o seu papel.

É de notar a diferença de percepção entre americanos e europeus, que se pode dever a vários factores. Um é que a maioria destas empresas está sediada nos Estados Unidos e, embora muitos dos fundadores e/ou CEO tenham vindo de fora, há uma afinidade com plataformas made in America. Outro é que o modo de operação deste lado do Atlântico é muito mais liberal, havendo uma apreciação pela liberdade de empresa e menor tendência a apoiar intervenção governamental nas indústrias. Como tal, a confiança nas empresas tende a ser maior, na mesma proporção em que existe desconfiança dos governos. Um regulamento tão abrangente e de mão pesada como o RGPD dificilmente será aprovado nos Estados Unidos, embora a Califórnia esteja a dar passos no sentido de maior regulamentação das plataformas online e o próprio presidente Donald Trump queira terminar com a protecção legal às empresas de Internet, Secção 230 (embora por motivos inteiramente diferentes, que se prendem com a acusação de que as redes sociais censuram as vozes da direita conservadora).

São formas distintas de ver as coisas, mas sem passos concretos nos Estados Unidos, a Comissão Europeia tem poder limitado para pôr ordem no faroeste digital em que vivemos.

A covid-19 veio mostrar-nos o lado solar da tecnologia, mas é pouco provável que os titãs de Silicon Valley se mantenham nas boas graças a longo prazo. A previsão dos analistas do Brunswick Group é que este período seja de pausa no techlash e que o questionamento retorne em força quando a crise for debelada. Particularmente porque existe uma falta de confiança nas tecnológicas e se mantém a convicção de que será necessário rever o enquadramento legal das empresas e criar nova legislação que limite o seu poder.

É possível e mesmo desejável que assim seja. Isto é, que se elogie a resposta de um sector a uma crise tão profunda e ao mesmo tempo não se branqueie o que é preciso mudar numa indústria sem a qual já não conseguimos viver. A covid-19 mostrou-nos que tudo o que diziam antes ser impossível era apenas falta de vontade política. Há que manter a pressão e apertar onde dói, porque já vimos que funciona. Vejam o boicote de anunciantes no Facebook durante Julho: quando os resultados financeiros estão em perigo, a "ética" torna-se menos dogmática.

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