Opinião: João Coutinho

Ricos, famosos e mortos. O que é o sucesso?

Avicii no Festival Rock in Rio, em Lisboa, em 2016.
( Gustavo Bom / Global Imagens )
Avicii no Festival Rock in Rio, em Lisboa, em 2016. ( Gustavo Bom / Global Imagens )

Viajar pelo mundo fora, ficar em hotéis 5 estrelas, comer nos melhores restaurantes, conhecer as pessoas mais interessantes de cada cidade e ainda por cima ser (bem) pago.

Se não é o melhor emprego do mundo, fico curioso com qual seja. Pois é, este era o emprego de Anthony Bourdain, o emprego que todo o mundo sonhava ter. Anthony Bourdain suicidou-se no dia 8 de junho de 2018. Era um dos mais renomados e famosos chefs de cozinha do mundo. Três dias antes, Kate Spade, uma das mais bem-sucedidas designers de moda dos Estados Unidos, suicidou-se no seu luxuoso apartamento na Park Avenue. Em abril desse mesmo ano, Avicii, o produtor de música eletrónica mais famoso do mundo, suicidou-se no quarto do hotel, no meio de uma tournée. Três pessoas talentosas, ricas, altamente bem-sucedidas, com os empregos de sonho, puseram fim à vida, no espaço de meses.

O documentário sobre o Avicii saiu uns meses depois da sua morte. O filme está altamente bem documentado, com vídeos desde os primeiros passos do produtor, as primeiras mixtapes, o primeiro hit, as entrevistas, os remixes com Pharrell Williams, Madonna, Lenny Kravitz, David Guetta, etc. O documentário acompanha-o desde que começou até a sua morte. Ele era tão talentoso que a fama foi instantânea. Começaram os pedidos para produzir grandes nomes da música internacional, começaram as tournées à volta do mundo. Começou a ansiedade e o stress até que um dia, em tournée no Japão, foi parar ao hospital. Era notório o seu sofrimento. Ele era o produtor musical mais famoso no mundo, com quem toda a gente queria trabalhar, com uma legião de fãs pelo mundo inteiro, enchia estádios…nunca se viu nada assim no mundo da música eletrónica. Avicii adorava criar, mas odiava as obrigações do sucesso. Odiava ter de andar em tournée pelo mundo. A uma certa altura quis parar. O empresário não lhe deu ouvidos, não o deixou parar, e o rapaz acabou por se matar aos 28 anos.

O realizador Fernando Meirelles, após o sucesso de Cidade de Deus, foi convidado a realizar o Fiel Jardineiro, um filme com produção de Hollywood, com Ralph Fiennes e Rachel Weisz (ganhou o Oscar de melhor atriz secundária). Para promover o filme, Meirelles viajou pelo mundo durante dois meses, esteve em 50 cidades diferentes. Quando voltou a casa, tinha perdido 20 quilos e estava com uma depressão. Disse à mulher e aos filhos que nunca mais iria realizar um filme na vida.

Sucesso e reconhecimento são duas coisas diferentes, mas no entanto andam de mãos dadas. Sermos reconhecidos pelo nosso talento, é uma coisa boa. Mas com o reconhecimento, vem o sucesso e o sucesso traz uma série de obrigações. A obrigação de abdicar da vida pessoal (a família passa para segundo plano e o pouco tempo que temos juntos, não é de qualidade, porque estamos sempre a trabalhar). A obrigação de ter de produzir sempre algo melhor que o último trabalho que fizemos. A obrigação de ser um exemplo, a obrigação de ser relevante. A obrigação de estar sempre no topo, custe o que custar.

A definição de sucesso, à luz da sociedade ocidental, está podre. Está a causar doenças, ansiedade, e a levar, em casos extremos, ao suicídio. É preciso uma reforma profunda. É preciso liberalizar e diversificar os padrões do sucesso. Começa logo pela influência que o dinheiro tem na definição. Ser rico não deveria ser sinónimo de sucesso. Há uns anos atrás, estava numa aldeiazinha no sul da Bahia e algo me chamou à atenção. Os habitantes da aldeia possuíam pouco mais do que uns calções e umas chinelas e no entanto eram pessoas extremamente felizes e realizadas. Tinham saúde, comida, a família por perto e moravam numa cabana em frente a uma praia paradisíaca. Que mais é preciso para ter ser altamente bem-sucedido?

North America Executive Creative Director na VMLY&R

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