Riscos emergentes: a aprendizagem de uma pandemia

O setor segurador tem na sua essência a transferência do risco e da exposição a um conjunto de ameaças. Para este exercício, concorrem uma diversidade de fatores, entre os quais se destaca a frequência histórica de ocorrência, mas também o potencial impacto das mesmas.

Em Portugal, é notório um histórico conservadorismo nas carteiras de seguros, transversal a indivíduos e organizações. Este tradicionalismo deve-se a um conjunto de razões, como a menor exposição a fenómenos climatéricos devastadores, a exemplo dos sismos, incêndios ou tempestades e furacões, ao contrário do que acontece noutras geografias, nomeadamente na Austrália ou nos Estados Unidos da América. Simultaneamente, e numa constatação particularmente inquietante, regista-se uma tendência para avaliar a perceção do risco com base na frequência dos incidentes, em detrimento da dimensão potencial do dano causado.

Este é um erro histórico, perfeitamente enraizado na cultura seguradora individual e coletiva. A História ensinou-nos que os erros tendem a repetir-se até atingirem um ponto de cisão. Este chegaria, de forma inesperada, através de uma ameaça invisível - o vírus da covid-19. A forma célere como o novo coronavírus se propagou à escala mundial, e as consequentes medidas de mitigação aplicadas pelos diferentes Governos, colocaram em evidência a exposição e a fragilidade das organizações perante esta tipologia de fenómenos. Interrupções de atividade, prejuízos históricos, despedimentos e falências têm vindo a suceder-se um pouco por todo o Mundo, numa tendência que estará longe de conhecer o fim.

Esta emergência sanitária, conjugada com os consequentes condicionamentos laborais e económicos, é claramente demonstrativa que estes eventos, apesar de menos frequentes, têm um potencial devastador bastante superior aos denominados riscos comuns.

Os fenómenos epidémicos incluem-se numa categoria habitualmente designada de riscos emergentes. Esta classe abrange um conjunto de riscos que, fruto de circunstâncias próprias, têm apresentado crescente desenvolvimento e aumentado o grau de exposição dos indivíduos e empresas aos mesmos. À imagem da atual pandemia, caracterizam-se por um significativo grau de incerteza quanto à forma e tempo de ocorrência, bem como ao eventual dano causado. Esta dúvida é causada pela inexistência de dados históricos relativos a ocorrências anteriores, bem como de ferramentas que permitam atuar rapidamente perante o deflagrar destas.

A preponderância da indústria seguradora na economia e na sociedade prende-se, de forma particular, com a capacidade de antecipar, analisar e formatar soluções adequadas para estas potenciais ameaças aos indivíduos e organizações, atuando numa ótica preventiva.

É com o foco nesta premissa que a AXA desenvolve, anualmente, o Future Risks Report, um estudo à escala global, que envolve mais de 2500 especialistas de diferentes setores de atividade, bem como a sociedade civil, para identificar e avaliar os principais riscos emergentes em todo o Mundo.

A edição 2020 evidencia, naturalmente, um crescimento acentuado das preocupações com os fenómenos epidémicos e infeciosos, que arrecadam o primeiro lugar do ranking. Os riscos climáticos surgem no segundo posto à escala mundial, embora conservem o lugar no topo das preocupações dos especialistas e da população europeia. A este título, é particularmente alarmante constatar uma relação diretamente inversa entre as principais nações responsáveis pela aceleração do ritmo das alterações climáticas e a apreensão demonstrada pelas respetivas populações com as mesmas.

O terceiro lugar do ranking global pertence aos riscos cibernéticos, cuja exposição da sociedade e das empresas conheceu um crescimento exponencial em 2020, em resultado da digitalização imposta à economia mundial pelas medidas de mitigação da pandemia da covid-19.

A evolução política das últimas décadas e, em específico, o surgimento de um conjunto de movimentos inorgânicos comummente designados de "antissistema", com vincado cariz nacionalista, explicam parcialmente a atribuição do quarto posto do ranking aos riscos geopolíticos, com diversas organizações a reavaliarem a suas redes globais e a gestão da suplly chain. Entre os dez principais riscos emergentes para os próximos anos contabilizam-se, entre outros, o descontentamento e as tensões sociais, a instabilidade macroeconómica e a deterioração dos recursos naturais e da biodiversidade.

Não pretendo, neste artigo, discorrer sobre cada uma destas problemáticas, merecedoras, pela sua sofisticação e múltiplas variáveis, de uma reflexão autónoma. Procuro, isso sim, destacar um conjunto de transformações, naturais e humanas, que estão a ocorrer à escala global, e que alteram significativamente as ameaças a que as populações e as organizações se encontram expostas.

Pela sua complexidade, estes riscos não poderão ser abordados, em exclusivo, pela indústria seguradora. Pelo contrário, exigem uma resposta integrada e conjunta, que assegure igualmente os contributos da sociedade civil, dos centros de conhecimento, do tecido empresarial e dos profissionais de avaliação e de gestão de risco. Apenas desta forma, o setor segurador cumprirá, na sua plenitude, a missão fundamental de partilha de risco e de indução de confiança.

Pedro Rego, CEO F. REGO - Corretores de Seguros

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