Sair do euro?

Imagine que ganha o "Não" no referendo de amanhã na Grécia. Imagine também que os restantes países europeus se recusam a oferecer mais dinheiro com menos condições. Muitos dizem que, nesse caso, a Grécia sairia do euro. A realidade é mais complicada e incerta.

Para começar, não está prevista a saída da zona euro nos tratados europeus. Não há base legal para um país ser expulso do euro. Pior, é provável que a Grécia se recuse a sair, mantendo o seu voto nas decisões do BCE, aconteça o que acontecer.

Ao mesmo tempo, o Estado grego gasta mais do que aquilo que cobra. A única forma actual de se financiar consiste em pedir emprestado aos bancos gregos, que por sua vez pedem emprestado ao Banco da Grécia, depositando a dívida pública grega como garantia. Para além disso, a Grécia continua a perder capital diariamente, com os gregos a tirarem os seus euros dos bancos gregos. Sempre que o fazem, os bancos gregos pedem euros emprestados ao Banco da Grécia. Como membro do Eurosistema, sempre que o Banco da Grécia empresta euros, está implicitamente a pedi-los emprestados aos restantes bancos centrais da zona euro. Por isso, é a zona euro e o BCE que, pós-referendo, financiariam a Grécia quase em exclusivo.

Ponha-se por isso nos pés de Mario Draghi. Você tem cerca de 20 mil milhões investidos em dívida grega, que o governo grego não quer pagar. Tem também 100 mil milhões de créditos sobre o Banco da Grécia no Eurosistema. Por fim, o seu mandato diz explicitamente que o BCE não pode financiar Estados. A forma como você justificou legalmente as intervenções dos últimos anos consistiu em afirmar que todos os empréstimos do BCE seriam temporários, todos seriam pagos, e só continuariam se os Estados fizessem parte de um programa da troika.

Se o BCE se recusar a estender as suas linhas de liquidez aos bancos gregos, então, de uma certa forma, a Grécia estará fora do euro. Os bancos gregos não conseguem satisfazer todos os levantamentos e fecham as portas. Os gregos podem continuar a usar euros, da mesma forma que os bósnios usam euros. Mas, é difícil ver como pode sobreviver o sistema bancário grego sem o apoio de um banco central. Seriam os próprios gregos a querer que o Banco da Grécia voltasse a ser um entidade independente.

Mas, nesse caso, surgem dois problemas. Primeiro, o que acontece aos 100 mil milhões que o Banco da Grécia deve ao Eurosistema? Enquanto a Grécia estiver dentro do Euro, não há prazo de pagamento, mas assim que ocorrer a saída, esta é uma divida oficial que deve ser saldada imediatamente. Segundo, no curto prazo, o novo Banco da Grécia vai enfrentar uma enorme corrida de fundos para fora do país. Só sobrevive ao colapso com o apoio do… FMI. Mas como a Grécia está, desde quarta-feira, na lista negra dos caloteiros, o FMI não pode ajudar.

Como acontece nos divórcios, é bom sonhar que basta rasgar o contrato e começar do zero. Mas a verdade é bem mais difícil e complicada. E o Syriza não parece fazer a mínima ideia.

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