Opinião: Carlos Brito

São as famílias, estúpido!

Fotografia: Fábio Poço/Global Imagens
Fotografia: Fábio Poço/Global Imagens

Quem teimar em olhar apenas pelo prisma do “dantes é que era bom”, da recusa em mudar e da reivindicação, nunca irá adaptar-se ao mundo em que vive

Todos já percebemos que o mundo do trabalho se alterou de forma radical. O problema é que neste século XXI se continua a lidar com essa mudança tendo por base receitas do século XX. A globalização da concorrência e a digitalização da sociedade, sem esquecer a profunda crise económica que se viveu na sequência da falência de importantes instituições financeiras nos EUA e da crise das dívidas soberanas na Europa, fazem com que o futuro do trabalho assente cada vez mais no trinómio flexibilidade – conhecimento – criatividade.

Há, no entanto, dois fenómenos demográficos que merecem uma atenção particular: o aumento da esperança de vida e a crescente importância – e não mero envolvimento – das mulheres no mundo do trabalho. Sem deixar de reconhecer que há ainda um longo caminho a percorrer em termos de igualdade de género (em termos de remuneração, de oportunidades de carreira e de acesso a posições de liderança), a verdade é que se está perante alterações com um forte impacto na estrutura familiar.

Não é apenas a questão do “envelhecimento ativo”, uma forma eufemística de dizer que todos vamos ter de trabalhar mais tempo – até os trabalhadores franceses irão perceber isso mais cedo ou mais tarde. E também não é apenas um problema de “trabalho igual, salário igual”, o que, convenhamos, é da mais elementar justiça. A questão é mais vasta pois prende-se com a estrutura familiar, a organização das suas tarefas diárias e a gestão das finanças privadas.

Em primeiro lugar, assiste-se a uma atomização das famílias. Mais de dois terços dos agregados familiares europeus são constituídos apenas por uma ou duas pessoas. Depois, e porque felizmente ainda há quem tenha filhos, a organização das tarefas diárias (entre trabalho, apoio aos filhos e aos mais idosos e a multiplicidade de incentivos ao lazer) requer grande flexibilidade, nem sempre compatível com os tradicionais empregos “das nove às cinco”.

Finalmente, os ciclos de poupança das famílias estão alterar-se radicalmente. No passado, os jovens casais começavam a poupar para comprar uma casa, para pagar os estudos dos filhos quando estes fossem para a universidade e para criarem um pé-de-meia para a sua reforma. Hoje, gasta-se cada vez mais na fase inicial do ciclo familiar, com um investimento crescente na educação das crianças, para além dos múltiplos incentivos ao consumo em detrimento do aforro como forma de precaver eventuais riscos futuros. O que faz com que as próximas gerações não vão usufruir da almofada de segurança familiar que a atual ainda possui.

Saber lidar com estas alterações é um desafio que se coloca não apenas aos governos e às entidades patronais e sindicais mas também às próprias famílias – ou seja, a todos nós! Uma coisa é certa: aqueles que teimarem em olhar para este fenómeno apenas pelo prisma do “dantes é que era bom”, da recusa em mudar e da reivindicação, nunca irão adaptar-se ao mundo em que vivem.

 

Carlos Brito, vice-reitor da Universidade Portucalense

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