São Francisco. A fuga da cidade-fantasma

Quando nada conseguia rebentar esta bolha, apesar dos sinais, a pandemia de covid-19 fê-lo de forma abrupta

As filas na ponte a caminho de de São Francisco eram históricas, assim como a bizarra situação de só se poder pagar com numerário e não com cartão para chegar ao centro da tecnologia. A vista, ao aproximarmo-nos da cidade, era de cortar a respiração. Aqueles edifícios enormes, as luzes a entrecortar o nevoeiro da baía, a água densa e o vislumbre de Alcatraz. Chegava-se com a sensação de que o futuro acontecia ali primeiro.

Mas esta descrição entusiasmada só faz ecos no passado. Há algum tempo que a situação se vinha deteriorando na cidade, que se tornou o centro nevrálgico de Silicon Valley, mais cobiçado que as zonas originais de São José e Santa Clara. Os muitos problemas que surgiram com a grande invasão dos unicórnios começou a gerar um movimento de saída nos últimos anos. E agora, com a situação caótica da pandemia de covid-19, esse êxodo precipitou-se para níveis nunca vistos.

De acordo com dados publicados pela empresa de imobiliário online Zillow, o inventário de casas disponíveis em São Francisco disparou 96% em relação ao ano passado. É uma situação inédita, e mais incrível ainda se olharmos para o gráfico que compara as diferenças entre São Francisco e outras cidades similares: Los Angeles, Miami, Seattle, Washington e Boston denotam uma redução ou estagnação do inventário. Não é uma tendência global. É uma verdadeira debandada da baía.

Isso nota-se no facto de as rendas estarem a cair pela primeira vez em muitos anos.

Há cerca de uma década que os preços das casas estavam consistentemente proibitivos para qualquer pessoa com um salário normal, e até salários acima da média. Aquilo a que por estes lados se costuma chamar de segundo boom tecnológico, a vaga de crescimento que se deu em Silicon Valley após o fim da era dot-com e a recuperação do investimento, levou a uma bolha imobiliária sem precedentes. A explosão de empresas como Facebook, Uber, Twitter, Google e outras levou ao influxo de milhares de profissionais vindos de todo o lado, criando uma escassez crónica de habitação disponível. Lembram-se de quando o Facebook apresentou a sua própria mini-cidade? Era um sinal de quão difícil estava a acomodação de mais e mais talento na região.

Quando nada conseguia rebentar esta bolha, apesar dos sinais, a pandemia de covid-19 fê-lo de forma abrupta. As grandes empresas mandaram os funcionários para casa e adaptaram-se a um modelo de trabalho remoto que, até ver, está a funcionar.

A fenomenal vida cultural e nocturna de São Francisco está suspensa. Para quê pagar montantes absurdos de renda e estacionamento se é irrelevante de onde a pessoa trabalha? Para quê partilhar casa com mais 5 pessoas se lá fora só se vê uma cidade-fantasma?

Com a pandemia fora de controlo na Califórnia e nos Estados Unidos, não há qualquer horizonte temporal para um regresso à normalidade. Não são apenas os engenheiros de software e os fazedores com grandes ideias que estão a encher carrinhas de mudanças em São Francisco. Tudo o que fazia mexer a vida na cidade está parado. Há muitas coisas que se pode continuar a fazer remotamente, mas conduzir Uber ou alugar bicicletas para tours na Golden Gate não estão entre elas. Mesmo quem não quer sair da cidade pode ser obrigado a fazê-lo, porque é impossível sobreviver ali depois de perder o emprego num sector que está em suspenso.

Se é verdade que São Francisco sempre foi uma cidade de idas e vindas, com muita gente a chegar e muita gente a sair de forma regular, o que está a acontecer agora vai levar a região para outro caminho. A Google, por exemplo, vai manter os funcionários a trabalhar de casa até ao verão de 2021. No Facebook, 40% dos funcionários disseram que querem ficar a trabalhar de casa permanentemente.

Apesar de haver uma noção de que isto é temporário e que a maioria das pessoas não vai simplesmente largar tudo e mudar de cidade, os números mostram que a tendência de fuga é real e está a mexer o mercado. O que acontecerá depois vai depender de quanto tempo levaremos até ter uma vacina eficaz, com uma proporção suficiente da população vacinada.

Nessa altura, porém, as pessoas que saíram podem não querer voltar. As empresas podem não querer manter campus com edifícios a perder de vista se descobriram que ter parte dos funcionários em trabalho remoto é mais rentável e produtivo. É possível que haja uma redescoberta da qualidade de vida fora da grande cidade. Ou que demore anos até toda a gente estar disposta a ir para o trabalho dentro de uma carruagem de metro a abarrotar. Silicon Valley teve um grande abanão quando a bolha das dot-com rebentou, em 2000. Este terramoto será ainda maior.

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