Se a televisão nos salva

Os Emmys foram um espelho do que andámos a fazer este ano: o melhor que podemos, tentando manter um espírito optimista que não raras vezes nos falha

A última vez que pisei uma passadeira vermelha foi na noite dos Óscares, no início de Fevereiro, quando apenas emergiam as primeiras notícias sobre um vírus misterioso a fazer estragos na China. De lá para cá, Hollywood travou a fundo e Los Angeles tornou-se na cidade mais afectada pela covid-19 na Califórnia. Acabaram-se as produções, as entrevistas presenciais, as ante-estreias e os mil e um eventos que fazem da cidade dos anjos a meca do entretenimento.

Ninguém sabia bem o que esperar, portanto, do primeiro grande evento da indústria após o abanão da pandemia. O que a 72ª cerimónia dos Emmys nos veio mostrar, este Domingo, é que precisamos desesperadamente de boas histórias. Que num momento em que a dependência dos smartphones e a toxicidade das redes sociais esfrangalham o tecido social, a televisão tem o poder de o reimaginar.

É claro que a cerimónia em si foi estranha e ninguém quererá repetir uma noite tão surreal – com um apresentador de fato a falar para um auditório vazio, vencedores a fazerem discursos em transmissões remotas e estatuetas entregues por estafetas em fatos hazmat ou por encomendas de correio. A Academia de Televisão fez uma produção enorme, com ligações de vídeo a mais de 100 locais, mas perdeu-se a sensação de comunidade que torna estes eventos tão impressionantes ao vivo. O sucesso, como o falhanço, requer audiência. E com isto conclui-se que a interacção virtual não chega.

Os Emmys 2020 foram um espelho do que todos andámos a fazer durante a maior parte do ano: o melhor que podemos, tentando segurar a sanidade mental e manter um espírito optimista que não raras vezes nos falha.

Mas a reflexão mais interessante desta noite de prémios é a centralidade que esta nova era dourada da televisão ganhou, precisamente por causa da pandemia e do confinamento. Isso mesmo se nota na série que venceu todas as categorias de comédia apresentadas no Domingo, “Schitt’s Creek” – uma história que mostra os desastres e vitórias de uma família apanhada na curva e obrigada a desterrar-se em conjunto nas condições menos auspiciosas.

Era impossível não encontrar paralelos entre a família Rose, da série, e as muitas dinâmicas que se formaram ao longo de mais de seis meses, com pais, filhos e às vezes avós todos enfiados debaixo do mesmo tecto, com as responsabilidades do ensino em casa e trabalho remoto a criarem quotidianos surreais.

A televisão, neste momento de abundância criativa, tornou-se muito mais que um escape. É uma lição de história, como os criadores de “Watchmen” aludiram ao agradecerem os vários Emmys recebidos. Apesar de baseada em banda desenhada, a série parte de um acontecimento histórico terrível que em 1921 eliminou uma das áreas afro-americanas mais bem-sucedidas dos Estados Unidos. Centenas de afro-americanos foram mortos por multidões de brancos, que destruíram a maior parte da “Wall Street Negra” em Tulsa, Oklahoma, num massacre praticamente desconhecido da maioria das pessoas. Esta cidade afluente de predominância negra era quase uma afronta num país segregado, onde o Klu Kux Klan exercia enorme poder. A destruição de Tulsa foi uma tragédia enterrada pelos narradores oficiais da história. E uma série baseada em banda desenhada desenterrou-a, iluminando um passado desconfortável num momento de ajuste de contas com o racismo estrutural que construiu a América.

Os exemplos de como a televisão pode mudar a nossa forma de ver o mundo e aproximar-nos de realidades que não conhecemos não são de agora, mas é agora que o conhecimento, a empatia e diversidade são mais importantes. Nunca vivemos, colectivamente, num momento tão decisivo como este. Pela pandemia, pelas alterações climáticas, pela globalização, pela manipulação de factos, pela subjugação do discurso público numa gritaria infernal que diluiu qualquer hipótese de menor denominador comum.

As histórias que contamos e as histórias que ouvimos moldam a nossa percepção. Jimmy Kimmel, que fez um trabalho decente a apresentar estes Emmys sem público, disse algo no seu monólogo que parece da boca para fora mas realmente faz sentido neste momento. “O mundo pode estar terrível, mas a televisão nunca esteve melhor.” É verdade. Agora que estamos a tentar afastar-nos do buraco negro dos smartphones, das teorias da conspiração, das fake news e das redes sociais, talvez a revolução venha mesmo a ser televisionada.

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