Se é para ficar pior, que sejam todos

Aos miúdos da escola, num ensaio de valores de partilha enquanto se ensinava que não era bonito mascar pastilha nas aulas, dizia-se: "Se não tem para todos, também não pode comer." E a mensagem certamente ficou colada na alma de muitos dos nossos governantes. O que explica a permanente necessidade de nivelar tudo, o paternalismo implícito na tentação constante de tornar tudo igual e não entender que a equidade vale mais; que tratar todos por igual traz injustiças tremendas; que o papel do Estado é desenhar as condições para todos terem oportunidades semelhantes, mas deixar que os melhores sejam premiados e tirem benefício do esforço acrescido - levando os demais a ambicionar essa vantagem pelo próprio empenho e resultados, não por simplesmente existirem.

Uma das razões que nos tornam um país de emigração - tendência que se vai intensificar mais - é o complexo de premiar os que têm resultados. Um miúdo não pode ganhar mais do que um sénior, mesmo que seja muito melhor. As progressões na carreira são determinadas pelos anos de serviço e não pela competência. Recusamo-nos a ser avaliados. Há sempre uma nota de repúdio por quem consegue fazer mais, ganhar mais, ir mais longe, sobressair. E se torcer para igualar todos na mediocridade não chega, criam-se regras que forcem os mínimos, nunca os máximos.

É isso que se consegue hoje ao proibir as escolas que têm capacidade para continuar a ensinar os alunos à distância - e que o pediram - de o fazer. Em nome de uns não ultrapassarem os outros, condena-se todos a perderem mais um ano. Nunca se pesa uma solução que passe por garantir rápida e eficazmente que os outros, os que ainda não têm acesso - e são imensos - passem a ter as condições essenciais para aprender mesmo nestas circunstâncias especiais.

Apregoar a digitalização não chega. Propagandear a compra de máquinas para as escolas e o acesso à internet para todas as crianças não resolve o problema de quem não tem computadores suficientes em casa para garantir que os filhos estão a aprender enquanto os pais estão em teletrabalho. Há que concretizar, fazer, agir. E para isso é preciso conhecer o país e identificar onde estão as suas fragilidades para sobre elas agir com eficácia. E fazê-lo em tempo útil, através de concurso público rápido e transparente, em vez de nos perdermos em discussões intermináveis sobre a quem se contrata o equipamento, quem o paga, quem tem de garantir as ligações e como se assegura a literacia digital dos milhares de professores atirados sem rede para o ensino à distância de um dia para o outro.

Como se viu há quase um ano, por muito boa vontade que tenham os educadores, as aulas dadas pela televisão são tão úteis como ver as maravilhas que o chef Bluementhal consegue levar a cabo e acreditar que sabemos algo sobre cozinha molecular.

Não é proibindo de aprender quem poderia fazê-lo que se assegura o melhor para todos. Isso apenas garante o pior para todos. E por muito mais tempo.

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